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Génese, desenvolvimento e reprodução da violência. Pedro Martins Psicoterapeuta - Psicólogo Clínico

Génese, desenvolvimento e reprodução da violência

Da Agressividade Natural à Génese, Desenvolvimento e Reprodução da Violência

Existe uma agressividade estrutural, endógena ou constitucional porque se admite fazer parte intrínseca da constituição biopsíquica do indivíduo.

É uma agressividade natural, em princípio benigna, posta ao serviço da construção da identidade, autonomia individual e estabelece normas para a vida em grupo.

A agressividade estrutural alimenta várias funções, possibilitando a realização de outras tantas finalidades:

– Aproximação, preensão e controlo daquele que desejamos;

– Defesa do território e do estatuto;

– Afastamento de rivais;

– Afirmação pessoal ou assertividade;

– Competição com os pares e os mais fortes e poderosos.

Esta força agressiva é, pois, um instrumento necessário à adaptação e útil ao desenvolvimento.

A agressividade reactiva é uma reacção à agressão do meio, designadamente do outro.

É desencadeada, quer pela agressão sofrida quer pela agressão prevista ou imaginada.

Surge, portanto, como resposta imediata ao ataque ou como ataque preventivo.

O homem é um animal ético por natureza porque se identifica com a vítima, o sofredor e o desvalido.

Esta forma de violência ou de agressividade, necessária à sobrevivência, é mitigada pelas regras do convívio social.

Na sua contensão, o medo do castigo, a culpa, a vergonha e os sentimentos de compaixão desempenham um papel importante.

Os sentimentos de compaixão pelo outro, derivados da capacidade de empatia e de identificação projectiva – poder sentir o que o outro sente, colocar-se na pele do outro, são as verdadeiras raízes da consciência moral.

Por isso, o homem é um animal ético por natureza – porque se identifica com a vítima, o sofredor e o desvalido.

Não precisa, a bem dizer, de uma moral ditada pelo exterior. Ele próprio a constrói.

Só aqueles que – por infeliz experiência infantil – não tiveram pessoas empáticas e disponíveis aquando do processo de identificação primária apresentam mais tarde incapacidade de empatia perante os fracos ou necessitados.

E por tal se tornam frios, perversos e criminosos; abusam do poder e exploram os outros; maltratam, negligenciam, abandonam.

Mal-amados, são incapazes de amar.

O acumular de experiências traumáticas – privações, castigos, humilhações – gera agressividade, ou propensão para desencadear comportamentos hostis e destrutivos.

Uma vez carente, magoado e ressentido, o indivíduo reage facilmente por agressão às ameaças, ataques e ofensas; o medo, o furor e a raiva narcísica impõem-na.

A frustração da expectativa de receber afecto, apreço e reconhecimento é, de entre todas, a que mais hostilidade e revolta provoca.

O homem, porque conhece o outro e se conhece, necessita de amor e reflexão.

Sem entrada de estima só se produz ódio. Ferido no seu orgulho o animal humano enraivece-se. É este o destino do que não foi amado: a violência.

Bibliografia:

– “Violência Inconsciente” – A. Coimbra de Matos

– “Génese, desenvolvimento e reprodução da violência” – A. Coimbra de Matos

A erotização do contato - Pedro Martins Psicoterapeuta, Psicólogo clínico

A Erotização do Contacto

É difícil viver o defeito narcísico, por isso o depressivo o mascara. Ao mesmo tempo, as defesas contra o afecto depressivo são uma das principais causas do agravamento da estrutura depressiva.

O depressivo, duramente inferiorizado, esconde as vergonhas. O essencial, para ele, é salvar a face narcísica; mesmo que o interior continue ferido e a humilhação bem sentida.

É precisamente nos deprimidos que encontramos a maior resistência à reabertura do ferimento narcísico, falsamente cicatrizado.

A erotização do contacto é um mecanismo antidepressivo por excelência.

A dificuldade de relacionar-se, a que a inferioridade conduz (e que com ela se reforça), tem outra saída: a erotização do contacto.

A erotização do contacto é um mecanismo antidepressivo por excelência. A ansiedade relacional é erotizada e a inibição na relação curto-circuitada.

A ausência de uma figura de amor, a perda não reparada do amor dessa figura – (causa primeira e fundamental do sofrimento depressivo) é negada.

Na relação erótica o investimento no outro é substituído pelo investimento no acto; uma relação funcional e parcial vicariante da relação total de amor  – tida e considerada, como impossível.

Mas sabemos bem a miséria que esconde, a insatisfação que comporta, a monotonia em que se traduz, o aborrecimento a que conduz – a depressão que se iludiu e que cada vez mais se vai tornando mais funda.

“Fugir à depressão é agravar a depressividade”

Fugir à depressão e ao afecto depressivo da perda e ao tempo de depressão que é necessário para elaborar e fazer o trabalho do luto é agravar a depressividade.

Sem esse trabalho não é possível conquistar um novo amor – única cura da depressão-doença -, reorganizando uma relação vital (não há vida mental saudável sem uma constância de amor).

O poder sentir, reconhecer e viver o vazio – de forma temporária – conduz, lógica e necessariamente, ao preenchimento, a novo encontro ou reencontro, e assim, substitui-se o vazio – que quando ignorado, caminha para o definitivo.

Caso contrário, é a morte da esperança, com a idealização do prazer. Parafraseando Samuel Johnson, diremos que: a vida não é um salto de prazer em prazer, mas um voo de esperança em esperança.

A relação biológica, animal, é ditada pelo instinto, mas a relação humana, pessoal, é nutrida pelo afecto.

A partir de: “Compensação narcísica e erotização do contacto” – A. Coimbra de Matos

Relações de Dependência - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicoterapia

Relações de Dependência

As relações de dependência estão mais presentes nas personalidades depressivas.

Esta dependência infantil que se prolonga para além da adolescência e que pelo excesso caracteriza todo o período maturativo – sendo portanto já detectável na infância – é-nos frequentemente revelada por expressões como:

– “Fui uma criança muito apegada à família”, “Em jovem foi difícil separar-me dos meus pais”.

Pela vida fora, estes indivíduos colam-se ao amigo, ao parceiro sexual, à religião, ao partido.

Nas personalidades depressivas mais graves predominam as relações de cunho simbiótico, ou mesmo adesivo.

“O estilo relacional do depressivo é o de uma marcada dependência – recebe menos do que dá.”

Num nível evolutivo um pouco superior, vamos encontrar as relações pessoais, ou interpessoais de mera complementaridade:

– Do tipo dominado/dominador e/ou explorado/explorador.

Muitas vezes, quando o paciente já se encontra perto de sair da situação depressiva, ainda vemos relações em que o depressivo recebe menos do que dá.

Ao desempenhar o seu papel de ente esfomeado que não ousa exigir o afecto a que tem direito, mantém, assim,  uma relação de dependência, uma vinculação infantil.

A ameaça de abandono afectivo e, logo, a ansiedade depressiva pairam sempre no horizonte da expectativa.

A esperança no sucesso pessoal, dada a escassez e insuficiência dos comportamentos de autonomia, êxito e progressão evolutiva, é travada pela inibição, ela própria consequência do medo, não só do abandono afectivo como da perda do outro.

Assim, a expectativa confiante no amor do(s) outro(s) – estimulo para a construção relacional, para a organização da constância de amor pelo outro e de plenitude amorosa, do sentimento de felicidade, alegria de viver e vitalidade, tende a diluir-se.

Na palidez da esperança reforça-se a segurança do lado de dependência.

No lugar do amor de que se desiste coloca-se a amizade a que se tem direito; “Foi a minha grande paixão, sou o seu melhor amigo”.

A partir de “Depressão: estrutura e funcionamento” – A. Coimbra de Matos

Tipos-de-Reacção-à-Perda-do-Amor-Pedro-Martins-Psicoterapeuta - Psicoterapia

Tipos de Reacção à Perda do Amor

A aflitiva, catastrófica perda do “outro” – no psicótico – resulta de que neste tipo de estrutura psicopatológica do Eu o outro é absolutamente único; e, consequentemente, na sua perda, fica completamente só e perdido no nada.

Na estrutura depressiva o “outro” – um outro especial – é bastante mais importante que os outros; podemos dizer, o único verdadeiramente importante. Quando o perde o depressivo sente-se sem verdadeiro objecto de amor.

Na organização neurótica há um “outro” privilegiado, mas há vários outros importantes e amados. Quando se perde esse outro privilegiado, não fica nem só nem sem amor – e esta distinção é fundamental.

Podemos acrescentar que o sujeito normal/neurótico tem um número de pessoas investidas com intensidades e formas variadas.

 

A desesperança resultante da perda, o sentimento de que não poderá conquistar um novo amor, organiza a estrutura depressiva.

 

Em regra, a uma série de perdas e desilusões, o indivíduo pode perder a confiança na sua capacidade de amar e/ou na sua qualidade para ser amado, e então perde a esperança e deprime-se verdadeiramente.

Já não é só o sofrimento pela perda havida mas também a desesperança, o sentimento de que não poderá conquistar novo amor e é esta desesperança que organiza a estrutura depressiva.

Na história do depressivo raramente há uma só perda, mas uma sucessão de perdas que estruturam um sentimento de incapacidade de conquistar o amor do outro.

As novas perdas de afecto são cada vez mais intoleráveis, não só porque diminuem as reservas narcísicas, como esgotam o debilitado capital de esperança.

Por outro lado, as relações amorosas, vividas sob o signo da inibição (e muitas vezes na desconfiança da sinceridade do amor do outro), são insatisfatórias. Quando perdidas deixam o sabor amargo do que não foi e podia ter sido, a perda do que ainda não tinha sido ganho – o desespero, a tristeza, a frustração de ter perdido o que apenas se saboreara parcialmente. É a morte antes da vida; a tristeza que se segue à tristeza e não à alegria.

 

A partir de “Psicopatologia Dinâmica” – A. Coimbra de Matos

A Criança Aprende a Dar -Amor- Recebendo

A Criança Aprende a Dar -Amor- Recebendo

Toda a criança, para um desenvolvimento afectivo normal, precisa de: Amor, Consideração; Apreço

Qualquer carência ao nível destas necessidades afectivas básicas conduz a um sentimento depressivo de falta; a qual, se não for preenchida, provoca a insuficiência narcísica.

A dor da privação ou da perda deixa como cicatriz a deficiência. Por isso, as carências ou perdas precoces não apresentam um bom prognóstico.

As privações ou perdas posteriores – depois da adolescência – já não têm a mesma influência sobre a organização narcísica; a não ser que reactivem feridas anteriores que tenham sido mal curadas.

De contrário, a solidez da compleição narcísica não se deixa facilmente abalar, mesmo que as carências ou perdas actuais sejam importantes.

Até mesmo as situações de humilhação ou de grande insucesso raramente atingem de forma depressivante a auto-imagem e o amor-próprio; provocam uma revolta sadia e eficiente e uma adaptação fácil.

Incidências psicopatológicas da falta de Amor, Consideração; Apreço

– A falta de amor, por indiferença ou rejeição da parte do outro, conduz, preferencialmente, ao bloqueio afectivo e à atitude agressiva.

– A falta de consideração, com atitude possessiva por parte do outro, e esmagamento dos desejos e dos direitos da criança, tende a produzir um desenvolvimento masochista.

– A falta de apreço, por desvalorização e, algumas vezes, troça por parte do outro, provoca uma deterioração da auto-imagem, repercutindo-se a lesão narcísica principalmente ao nível da auto-imagem sexuada. É aqui que o sentimento de inferioridade vais morder mais o amor-próprio.

A criança aprende a dar (amor) recebendo.

É importante sublinhar que a criança aprende a dar (amor) recebendo. Só, portanto, pais suficientemente amantes dos filhos – dando-lhes uma amor sereno, equilibrado, espontâneo e natural, humano e autêntico, mais oblativo que captativo, no intuito de apoiar o florescimento da personalidade genuína da criança e não no desejo normativo de a encaixar no modelo que eles concebem ou no desejo egoísta que o filho preencha as suas próprias carências ou realize, por delegação, os seus projectos frustrados – poderão ensinar a amar.

A criança vai-se direccionando mais para o outro, na medida em que vai aprendendo – intuindo, pois é uma aprendizagem predominantemente afectiva -, que amando o outro reforça o amor que dele recebe. É o circulo do amor ou da relação amorosa, que, pela reciprocidade do afecto, se vai desenvolvendo e aperfeiçoando até atingir uma maturidade genital.

Bibliografia: “A Depressão” – Coimbra de Matos

Depressão, Depressividade e Depressibilidade

Depressão, Depressividade e Depressibilidade

1 – Existe uma depressão – dita “reactiva” – que é a depressão normal ou fenómeno do luto:

– Corresponde à perda de alguém significativo.

Neste caso falamos de DEPRESSIBILIDADE: qualidade de se poder deprimir, de ser capaz de fazer um trabalho de luto – o que é um sinal de boa saúde mental.

2 – Falamos em DEPRESSÃO patológica quando os laços afectivos são predominantemente narcísicos.

Assim, verifica-se uma intolerância e uma susceptibilidade particularmente intensas à perda do amor e protecção desse outro fundamental.

Como a relação com o outro é de tipo funcional ou complementar – um instrumento ou prolongamento do próprio -, o sujeito sente, ao perdê-lo, que se destaca e afasta uma parte essencial de si mesmo.

3 – A DEPRESSIVIDADE diz respeito ao esforço defensivo continuo para não se deixar deprimir: ficar deprimido (abatido), ou deprimir-se (sentir-se triste e com sentimentos de solidão) devido a uma perda.

Podemos dizer que são pessoas que jogam à defesa; quanto muito, ao contra-ataque.

O medo é grande, e por isso, a batalha, quando possível, quase sempre evitada.

As depressões manifestas que estes sujeitos apresentam são curtas (ainda que frequentes).

Por um lado, a sua fraqueza não lhes permite correrem o risco de sentirem verdadeiramente a perda de alguém.

A depressividade não é, propriamente, uma depressão:

– O que domina o estado afectivo não é a tristeza e o sentimento de perda, mas um mal-consciencializado sentimento de dependência e opressão.

Um receio de ficar só, uma incapacidade de se visualizar autónomo – numa palavra, uma impossibilidade de verdadeiramente se deprimir, ou seja, de aceitar a perda.

“A depressividade remete para um estado permanente e a depressibilidade para um estado temporário/transitório.”

A depressividade não é, em rigor, um estado de humor, mas uma disposição de fundo – a disposição depressiva; é-se (ou não) depressivo.

Na depressividade falamos em “ser” e na depressão normal em “estar”.

A depressividade remete para um estado permanente e a depressão normal para um estado temporário/transitório.

A relação do depressivo é constantemente ambitendente; quer, e não quer.

O relacionamento oscila entre a submissão e a revolta: uma jamais aceite; a outra, nunca completamente assumida.

“Depressibilidade: Os depressíveis são aqueles que se podem deprimir”

Há, por outro lado, aqueles que sabem e podem perder:

– Fazem o luto do que desapareceu e investem novamente, reparando facilmente a perda narcísica.

É o que designámos no ponto 1 por DEPRESSIBILIDADE (aqueles que são depressíveis, ou seja, que se podem deprimir).

Realizam lutos normais aquando da perda:

– Pois não estão excessivamente dependentes do outro (patologicamente afeiçoados);

– Nem o outro é detentor de partes importantes do Self, arrastando no seu naufrágio partes do próprio.

E este último é um motivo de relevo:

Na personalidade depressiva, o outro é, em grande medida, um prolongamento, um complemento da pessoa – por isso a sua perda é tão dolorosa e incapacitante, deixando uma ferida aberta que equivale a uma verdadeira amputação do próprio.

Acresce que a personalidade normal (o tal depressível) tem uma compleição narcísica razoavelmente sólida, uma auto-imagem suficientemente boa, uma auto-estima capaz de suportar sem afundamento do valor próprio as lesões narcísicas que, mesmo independentemente da acção dos outros, a vida vai provocando: perdas de prestígio, de capacidades, de funções, de situações sociais ou económicas, o envelhecimento, etc., etc., que são inerentes a toda a existência individual.

Bibliografia: Matos, A. C. (2001). A Depressão. Lisboa: Climepsi Editores

desejo necessidade psicoterapia

Desejo ou Necessidade?

A necessidade é uma tensão interna gerada pela falta.

Resolve-se pelo encontro do organismo em carência com aquilo que lhe falta. Como exemplo temos a fome e a tensão sexual.

Do encontro do sujeito em carência, em estado de necessidade, com aquilo que lhe falta ou de que precisa (coisa e/ou acção específica do meio) resulta em satisfação.

O que precisa pode ser:

  • uma coisa – um objecto material (como o alimento, quando a necessidade é a fome)
  • uma acção específica de outra pessoa – o comportamento adequado da pessoa adequada (o parceiro sexual, se a necessidade é a de intercurso sexual; o comportamento acolhedor, terno e de carícias quando se faz sentir a necessidade de contacto e conforto corporais)
  •  ou o investimento afectivo e estético – amor e admiração – da pessoa privilegiada (objecto preferencial) no caso de a necessidade premente ser afectiva e narcísica.

Coisa, acção, amor e apreço são os bens necessários e imprescindíveis.

O sujeito, no seu encontro com aquilo que o satisfaz, vive uma experiência de satisfação.

“A necessidade tem origem numa carência do organismo, o desejo na recordação de um prazer.”

O desejo é um sentimento de apetência resultante da reactivação da memória da satisfação já experimentada quando a necessidade de novo se faz sentir.

O desejo é, portanto, sempre secundário, só possível depois de uma primeira experiência de satisfação.

A fome traduz uma necessidade, o apetite é o desejo de algo que o indivíduo já saboreou.

A tensão sexual corresponde a um estado de necessidade sexual, o desejo sexual é o interesse em repetir uma experiência prazerosa.

A necessidade tem origem numa carência do organismo, o desejo na recordação de um prazer.

A necessidade revela-se ao nível psicológico por um estado de tensão e desconforto internos (psíquicos).

O desejo revela-se por um estado de excitação psíquica e uma fantasia de realização do desejo com antecipação representada da satisfação.

Bibliografia: “O inconsciente primário ou virtual e a psicossomática” – A. Coimbra de Matos

Acusar e Perdoar em Psicoterapia - Pedro Martins Psicoterapeuta

É Possível Perdoar?

“Acusar, perdoar e reconciliar-se.”

A origem do excesso de agressividade internamente acumulada é um complexo problema etiopatogénico, e importa saber como e porquê se constitui tal acervo de agressividade contida (raiva, ressentimento, ódio, desejo de retaliar).

Ao mesmo tempo, é preciso saber quando e de que maneira o paciente pode assumir os seus afectos constrangidos, elaborar a dor e o sentimento de injustiça e reparar os danos e prejuízos sofridos.

Como e em que tempo pode ele acusar, perdoar e reconciliar-se.

É costume ouvir-se dizer – “perdoei mas não esqueci”. Nada de mais errado psicologicamente, e portanto produto de uma convicção ilusória.

“Perdoar é necessário à saúde mental.”

O animal homem esquece, mas raramente perdoa. E simplesmente perdoar as ofensas sofridas não é a atitude psicológica mais correcta e saudável.

Contudo, o perdão é necessário à saúde mental. Como resolver então este aparente paradoxo?

Parece complicado, mas não o é de todo.

Para perdoar é preciso previamente ter acusado. Só depois de acusar, mover o processo de inculpação, é possível o perdão, a amnistia, a clemência.

Acusar não é condenar; é esclarecer.

A reconciliação com o inimigo de outrora só é viável após a libertação do ódio e ressentimento contidos.

Com falso perdão ou pseudo-reconciliação não se constrói bem-estar psíquico nem bom relacionamento.

Aquele que foi agressivo, abandonante, negligente, explorador ou desqualificante tem que ser “acusado” perante o terapeuta, juiz neutro e benevolente.

Só depois poderá ser compreendido nas suas dificuldades e patologia, e entendida a relação (interna e externa) agressiva e patogénica que com o sujeito estabeleceu.

Então, mas só então virá o perdão.

No entanto, há ofensas que não se podem nem devem perdoar – o respeito por si próprio e a dignidade a que cada um tem direito traçarão o limite do perdoável.

Nem sempre o perdão é necessário à saúde mental e, em algumas circunstâncias, pode ser inconveniente.

Bibliografia: “Mais Amor, Menos Doença” – A. Coimbra de Matos

Ciúme e Inveja Psicoterapia

O Ciúme e a Inveja. Descubra as diferenças

O ciúme é um sentimento vivido na relação triangular (a três) originado no receio de perder o objecto de amor; a dificuldade no ciúme é a repartição do amor do outro.

O indivíduo pretende ser único e exclusivo depositário desse amor.

“O ciúme é um sentimento altamente perturbador e está na origem dos mais variados dramas passionais.”

No ciúme o sujeito luta pela posse total e exclusiva do amor do outro, sabendo de antemão que isso não é possível pela consciência que tem da existência de um terceiro.

Presente nos mais variados quadros clínicos, é sobretudo característico da estrutura obsessiva.

Trata-se de um sentimento forte e altamente perturbador que está na origem dos mais variados dramas passionais e portanto, traz muitos pacientes para a terapia.

Costuma-se distinguir entre ciúmes neuróticos (que corresponde à breve descrição que fizemos), os ciúmes mórbidos ou patológicos e os ciúmes delirantes, conforme o grau de maior ou menor crítica; os ciúmes patológicos ligam-se com a estrutura depressiva; o delírio de ciúme com a paranóia.

A inveja é um sentimento vivido na relação binária (a dois) e que traduz uma incompletude narcísica. É um sentimento de falta, experimentado na comparação com o outro; e condiciona o desejo de possuir os atributos desse outro.

O sentimento de inveja vai operar pela vida fora em todas as circunstâncias em que a consciência de défice se agudiza e a idealização do outro se avoluma, sendo portanto fácil de estalar em toda a estrutura narcisicamente tocada e em toda a relação em que o outro se torna demasiado importante para a segurança do sujeito.

Se o outro demonstra ou exibe aos olhos do sujeito, por qualquer forma, a sua qualidade de superior, a inveja duplica. Passa de um ressentimento e desejo de apoderar-se das posses e atributos do outro (que caracteriza genuinamente a inveja) para o desejo de o destruir; é nesta sequência se organiza o desejo de poder.

“No ciúme e na inveja o amor-próprio é altamente atingido.”

Enquanto na inveja conta um sentimento de falta e um desejo de apoderar-se, no ciúme está em causa um sentimento de perda ou ameaça de perda e um desejo de reter.

Em ambos os casos, a agressividade e o ódio jogam um papel predominante na relação com o outro. Num e noutro caso, o amor-próprio é altamente atingido; na inveja, sobre a forma de ressentimento; no ciúme, de humilhação. À revolta no invejoso, corresponde a depressão no ciumento.

Na inveja há um défice narcísico e no ciúme um ferimento narcísico; o invejoso sente-se pobre, o ciumento empobrecido.

Centrado no sentimento de perda, o ciumento oscila entre os pólos da depressão e da raiva: quanto mais agressivo, menos deprimido.

Enquanto o invejoso jamais se sente suficientemente poderoso, o ciumento nunca se sente completamente amado.

Na inveja o tom afectivo básico é a insatisfação; no ciúme a tristeza. O ciumento sente-se desvalorizado, é tímido e submisso; o invejoso ambiciona e luta (isto numa visão extremada, é evidente).

Estas descrições – da inveja e do ciúme – são notoriamente esquemáticas e intencionalmente forçadas, para bem distinguir os cambiantes típicos dos afectos (as suas estruturas) em causa. Na vida afectiva real, o que encontramos é uma mistura dos dois sentimentos, polarizando-se mais num sentido do que noutro.

A partir de “A inveja e o ciúme.” A. Coimbra de Matos

A Mãe Possessiva Pedro Martins Psicoterapeuta

A Mãe Possessiva

Fala-se, em psiquiatria e em psicologia (e noutros meios), com extrema frequência da mãe possessiva.

Mas nem sempre esta frase significante traduz, na expressão de quem a emprega, o significado correcto da mãe concreta de características possessivas.

“O traço caracterológico mais típico da mãe possessiva é a insuficiência narcísica.”

Este tipo psicológico de mãe é, sobretudo, uma mãe que se apodera de um filho como um objecto de propriedade privada:

– Para benefício da sua (da mãe) segurança pessoal e na razão (da mãe, ainda) da sua insegurança intrínseca, constitutiva e fundamental.

É esta insegurança – esta insuficiência narcísica – o traço caracterológico mais típico, e essencial, das chamadas “mães possessivas”.

A mãe possessiva “ama” o filho de uma forma narcísica, como um prolongamento de si própria.

Mais ainda: como uma peça fundamental e imprescindível do seu equilíbrio dinâmico.

O filho é um suporte do seu equilíbrio instável, um pilar na sua organização psíquica deficitária.

Consequentemente, o filho é utilizado – com feroz egoísmo e num medo constante de o perder (o que conduz a não lhe permitir a sua independência progressiva, logo a formação como ser) -, persistente e indefinidamente, como objecto que preenche o funcionamento deficiente da mãe.

E nada perturba mais o desenvolvimento infantil do que este tipo de investimento em que a criança não é considerada um autêntico sujeito, ou, numa outra linguagem, objecto portador de desejos próprios.

Ao filho atormentado, tímido e culpabilizado, submisso e cumpridor, sem energia nem originalidade, é exigida uma lealdade a toda a prova, um amor (pela mãe) indefectível, uma gratidão sem limites.

“Estas mães apelam constantemente para os “sacrifícios” que fazem e fizeram pelos filhos.”

A mãe possessiva é descrita pela psiquiatria fenomenológica como ansiosa, fóbica, deprimida ou hiperactiva, ambivalente e dominadora.

No cerne da sua estrutura psicopatológica define-se por sentimentos de desvalorização pessoal e pela necessidade constante de compensação.

Estas mães apelam, passo a passo, para os “sacrifícios” que fazem e fizeram pelos filhos: numa persistente atitude de reparação da auto-imagem de insuficiência e de culpa (inconscientes).

Mas o apregoado sacrifício é uma falsificação da realidade.

De sacrifício tem apenas a aparência, pois, no íntimo, a sua atitude foi sempre ditada pelo benefício egoísta a retirar:

– Receber mais tarde os favores que agora dispensa.

Cronicamente dominadora – física, emocional ou moralmente, conforme a idade do filho e as circunstâncias -, esta mãe tentacular, que tem razão, é como uma espécie de Deus omnisciente e omnipresente.

Portanto, a sua influência crítica conselheiral, perdura na consciência do filho, ultrapassando as barreiras do espaço e do tempo (para além, portanto, da sua presença concreta).

É uma espécie de “supermãe”, que, com o álibi da protecção, superintende em toda a vida do filho.

Estas mães são tanto mais patogénicas, quanto menos se fez sentir a presença do pai.

É o que pode acontecer na situação da “mãe como educadora única”(mãe solteira, viúva, ausência prolongada do pai, etc.), ou quando o pai é uma figura apagada ou passiva.

Nestas situações falta ao filho um importante elemento de contraste, uma necessária figura de identificação secundária, o contraponto da realidade exterior (exterior à relação binária mãe-filho – gratificante e construtiva, mas também frustrante e devoradora).

É apoiando-se no modelo paterno que a criança suprime paulatinamente, a dependência da mãe; tornando-se autónoma e responsável.

Excertos do artigo “A Mãe Possessiva” – A. Coimbra de Matos

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