Categoria: <span>Relacionamentos</span>

Porque se Evita Falar de Desejos Sexuais- Pedro Martins Psicoterapeuta

Por que se Evita Falar de Desejos Sexuais?

O conflito é inevitável nos relacionamentos. Você gostaria de economizar mais dinheiro para o futuro, mas o seu parceiro gostaria que os dois aproveitassem mais a vida agora. Você acha que o seu companheiro é muito duro com as crianças, mas o seu parceiro acha que você é demasiado tolerante. Você acha que já faz mais que a sua parte das tarefas domésticas, mas o seu parceiro acha que você não faz o suficiente.

Frequentemente, os casais discutem sobre questões como estas e, muitas vezes, podem encontrar soluções para as divergências.

Os casais que conversam sobre questões sexuais estão mais satisfeitos com os seus relacionamentos

No mínimo, quando falam sobre os seus problemas, percebem melhor as preferências dos parceiros. Mas há uma área de conflito que muitos casais evitam discutir a todo o custo: diferenças nos desejos sexuais.

Várias pesquisas mostram que os casais que conversam abertamente sobre questões sexuais estão mais satisfeitos com os seus relacionamentos. No entanto, muitas pessoas preferem suportar uma vida sexual infeliz do que ter a temida conversa.

Porque é que tantas pessoas têm medo de dizer ao parceiro quais são os seus desejos sexuais?

Esta é a pergunta que a psicóloga Uzma Rehman e os seus colegas exploraram num estudo recente sobre comunicação de conflitos nos casais.

A comunicação de conflitos é sempre difícil, em grande parte porque estamos motivados para evitar emoções negativas. Os ânimos aquecem e as pessoas magoam-se.

Assim como evitamos ir ao dentista apesar duma dor de dentes, evitamos conversar com o nosso parceiro sobre questões delicadas. Então deixamos os problemas alastrarem-se.

Com os problemas não sexuais tendemos a chegar a um ponto em que, “rebentamos” e deixamos sair tudo.

As discussões podem ser saudáveis, sobretudo, quando a discussão permanece focada no assunto em questão e não é usada para desferir ataques.

Mesmo os casais que são razoavelmente bons a resolver vários tipos de conflito ficam presos quando se trata de discutir problemas sexuais.

Em vez de comunicarmos as nossas preferências e perguntar quais são as dos nossos parceiros, seguimos padrões culturais sobre como é suposto o acto sexual acontecer.

Apesar do nosso desejo de ruptura com a rotina, conservamos as fantasias para nós mesmos. Não é de admirar que as nossas vidas sexuais se tornem desenxabidas depois de anos de casamento.

Encontrar coragem para falar dos seus desejos sexuais pode impulsionar o relacionamento.

Pesquisas anteriores mostraram que os casais evitam a comunicação de conflitos porque os percepcionam como três formas de ameaça diferentes:

Ameaça ao relacionamento. As pessoas temem que a discussão sobre o conflito danifique irremediavelmente a relação. Noutras palavras, valorizam os seus relacionamentos mesmo quando não são felizes.

Então, preferem não dizer nada, a arriscar um conflito que poderia levar a uma melhoria na relação, mas que também poderia destruí-la.

Ameaça ao parceiro. As pessoas temem que a discussão sobre conflitos possa magoar os seus companheiros.

Ou seja, preocupam-se com o bem-estar dos seus companheiros, mesmo quando não estão felizes com a maneira como o relacionamento corre.

Mais uma vez, preferem viver nesse estado do que fazer com que o seu parceiro se sinta desconfortável, mesmo com a possibilidade de melhorar as coisas.

Ameaça para si mesmo. As pessoas temem que a discussão sobre conflitos as torne vulneráveis.

Se revelam muito sobre si mesmos, ficam preocupados com o facto de o seu companheiro os desaprovar ou fazer com que se sintam envergonhados.

Precisamos da aprovação do nosso parceiro, mas o medo de perdê-lo é a principal razão pela qual as pessoas evitam falar sobre assuntos delicados.

No seu estudo, Rehman e os seus colegas, pediram às pessoas com relacionamentos sérios que se imaginassem numa situação de conflito com o companheiro. O cenário envolvia uma questão não sexual sobre a divisão de tarefas domésticas e uma questão sexual sobre os envolvimentos íntimos.

Depois disso, os parceiros responderam a um questionário que media a sensação de ameaça ao relacionamento, ao parceiro e a si próprio.

Por um lado, os resultados mostraram que os conflitos sexuais são semelhantes aos conflitos não sexuais, em que todos os três tipos de ameaças percebidas eram altos.

Por outro lado, os argumentos sexuais resultaram em níveis ainda mais elevados de percepção de ameaça ao próprio do que os confrontos não-sexuais.

As pessoas não falam sobre questões sexuais é porque consideram uma ameaça a si mesmas

Em suma, este estudo mostrou que a principal razão pela qual as pessoas evitam falar com os seus companheiros sobre questões sexuais é porque elas consideram essa discussão como uma ameaça a si mesmas.

Com base nas respostas deste estudo e noutros, podemos apontar algumas razões pelas quais os casais se afastam das discussões sobre questões de intimidade.

Primeiro, por razões culturais, o sexo é um assunto embaraçoso, por isso evitamos, de todo, falar sobre isso. Ou então, aliviamos a tensão transformando as discussões sexuais em piadas.

Mesmo dentro de relacionamentos sérios, tendemos a ver o sexo como lascivo e por isso não falado.

Em segundo lugar, a educação sexual é, lamentavelmente, inadequada. Embora tenhamos noções sobre como o acto sexual deve ocorrer, poucos de nós entendemos a amplitude e o impacto que as actividades sexuais têm para os seres humanos.

Portanto, temos dificuldade de compreender os nossos impulsos sexuais, e não dispomos de vocabulário para comunicá-los aos nossos companheiros.

Por causa do nosso constrangimento e ignorância no que diz respeito às questões sexuais, sentimo-nos especialmente vulneráveis ao revelar as nossas fantasias secretas.

Como achamos que os nossos desejos são estranhos, assumimos que nosso parceiro pensará o mesmo.

As pessoas que têm coragem de discutir questões de intimidade com os companheiros geralmente são mais felizes nos relacionamentos.

Mas aprender a superar toda uma vida de constrangimento sobre sexo e desenvolver um vocabulário adequado exige esforço.

Apesar de o conflito ser inevitável nas relações e os casais fugirem deles, as questões de intimidade estão entre as mais difíceis de abordar.

O conflito em si não é um sinal de que algo corre mal na relação. Pelo contrário, se ambos os parceiros abordarem a discussão com a vontade de resolver a questão, o relacionamento será fortalecido.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de: “Why You Won’t Talk About Sexual Issues With Your Partner” – David Ludden. Ilustração Lumi Mae

 

Pais Tóxicos - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Pais Tóxicos – Descubra como lidar com eles

Se é complicado estar com os seus pais e os evita, há grande probabilidade de eles serem tóxicos.

Não só os relacionamentos tóxicos podem incluir a relação com pais narcísicos, como muitas das relações tóxicas em que nos envolvemos têm como matriz relações familiares disfuncionais.

Quando crescemos com pais tóxicos podemos não reconhecê-los como tal.

Normalmente, os pais tóxicos não respeitam os filhos como indivíduos. Não se comprometem, não assumem a responsabilidade pelos seus comportamentos, nem pedem desculpa.

Os pais tóxicos podem prejudicar os filhos ao ponto de impedirem o seu crescimento, assim como os movimentos no sentido da retoma do desenvolvimento suspenso, da autonomia e da independência.

Quando crescemos com pais disfuncionais, podemos não reconhecê-los como tal. Tudo parece normal.

Podemos estar em negação e não perceber que fomos maltratados emocionalmente, principalmente, quando as nossas necessidades materiais foram satisfeitas.

 

Comportamentos Tóxicos

Aqui estão algumas questões que deve colocar em relação ao comportamento dos seus pais. Se a conduta deles é persistente, pode ser tóxica para a sua auto-estima.

1 – Eles tendem a exagerar ou a fazer cenas?

2 – Eles fazem chantagem emocional?

3 – Eles fazem exigências frequentes e/ou irracionais?

4 – Eles tentam controlar?

5- Eles criticam ou comparam você?

6 – Eles ouvem com interesse?

7 – Eles manipulam, usam a culpa, ou fazem-se de vítima?

8 – Eles culpam ou atacam você?

9 – Eles assumem a responsabilidade e pedem desculpa?

10 – Eles respeitam os seus limites físicos e emocionais?

11- Eles desconsideram os seus sentimentos e necessidades?

12 – Eles invejam ou competem consigo?

 

Separar-se dos pais tóxicos: Seja assertivo e defina limites

A autonomia e a independência do ponto de vista emocional não têm uma relação directa com distância/proximidade física. Mesmo que fisicamente se afaste bastante, a ligação emocional disfuncional pode persistir.

Relacionamentos com pais tóxicos podem ser difíceis de cortar

É mais difícil não reagirmos aos nossos pais do que aos nossos amigos e parceiros, com quem estamos em pé de igualdade. Os pais podem facilmente mexer com os filhos; eles sabem onde está o botão que faz desencadear certo tipo de reacções.

Uma vez que os limites nos foram impostos pela família, quando fazemos certos movimentos que ponham em causa esses limites, a família, em particular os pais, sentem necessidade de nos mostrar que não os devemos ultrapassar.

É muito complicado estabelecer novos limites com os pais, principalmente se você tenha uma mãe que liga (ou “exige” que você ligue) todos os dias; se queixa com frequência de problemas de saúde; diz sentir-se sozinha; faz chantagem emocional, e, dessa forma, provoca sentimentos de culpa.

À medida que os movimentos de autonomização são sentidos pelos pais, como reacção, começam a desferir ataques ao terapeuta, amigos ou companheiro, responsabilizando-os pelo estabelecimento dos novos limites.

Relacionamentos com pais tóxicos podem ser difíceis de cortar. Você pode precisar de se distanciar deles para criar os limites que não consegue estabelecer directamente com eles.

Algumas pessoas cortam com a família por esse motivo.

Os cortes podem ser necessários em casos de pais tirânicos. No entanto, embora reduzam a tensão emocional, os problemas subjacentes permanecem e podem afectar todos os relacionamentos.

É muito melhor, para o seu crescimento emocional, aprender a responder aos ataques.

Superar um relacionamento tóxico começa em si

Quando visitar os seus pais, preste atenção às regras não expressas; aos limites e aos padrões de comunicação. Tente comportar-se de uma forma diferente daquela que tinha quando era jovem.

Preste atenção aos hábitos e defesas que usa para gerir a sua ansiedade.

Pergunte a si mesmo: “Do que tenho medo?” Lembre-se de que, embora possa sentir-se como uma criança quando está com os seus pais, você já não é uma criança. Agora você é um adulto. Se quiser pode ir-se embora, ao contrário de quando era criança.

Superar um relacionamento tóxico começa em si – nos seus sentimentos e atitudes -, e termina em si. A expectativa que os seus pais vão mudar vai diminuindo, até que finalmente percebe que eles nunca vão mudar, mas você vai.

 

Aspectos a ter em mente em relação aos seus pais:

1 – Não é necessário que os seus pais mudem para você ficar bem.

2 – Você não é os seus pais. Eles são uma coisa, você é outra.

3 – Você não é aquilo que eles dizem que você é.

4 – Não é obrigatório gostar dos seus pais, no entanto, pode estabelecer uma nova relação com contornos diferentes e amá-los.

5 – Você não pode mudar os seus pais.

O que você pode fazer

Inicie uma psicoterapia, fortaleça a sua rede de apoio/amigos e procure obter uma independência financeira.

Relações de Dependência - Pedro Martins Psicoterapeuta Psicoterapia

Relações de Dependência

As relações de dependência estão mais presentes nas personalidades depressivas.

Esta dependência infantil que se prolonga para além da adolescência e que pelo excesso caracteriza todo o período maturativo – sendo portanto já detectável na infância – é-nos frequentemente revelada por expressões como:

– “Fui uma criança muito apegada à família”, “Em jovem foi difícil separar-me dos meus pais”.

Pela vida fora, estes indivíduos colam-se ao amigo, ao parceiro sexual, à religião, ao partido.

Nas personalidades depressivas mais graves predominam as relações de cunho simbiótico, ou mesmo adesivo.

“O estilo relacional do depressivo é o de uma marcada dependência – recebe menos do que dá.”

Num nível evolutivo um pouco superior, vamos encontrar as relações pessoais, ou interpessoais de mera complementaridade:

– Do tipo dominado/dominador e/ou explorado/explorador.

Muitas vezes, quando o paciente já se encontra perto de sair da situação depressiva, ainda vemos relações em que o depressivo recebe menos do que dá.

Ao desempenhar o seu papel de ente esfomeado que não ousa exigir o afecto a que tem direito, mantém, assim,  uma relação de dependência, uma vinculação infantil.

A ameaça de abandono afectivo e, logo, a ansiedade depressiva pairam sempre no horizonte da expectativa.

A esperança no sucesso pessoal, dada a escassez e insuficiência dos comportamentos de autonomia, êxito e progressão evolutiva, é travada pela inibição, ela própria consequência do medo, não só do abandono afectivo como da perda do outro.

Assim, a expectativa confiante no amor do(s) outro(s) – estimulo para a construção relacional, para a organização da constância de amor pelo outro e de plenitude amorosa, do sentimento de felicidade, alegria de viver e vitalidade, tende a diluir-se.

Na palidez da esperança reforça-se a segurança do lado de dependência.

No lugar do amor de que se desiste coloca-se a amizade a que se tem direito; “Foi a minha grande paixão, sou o seu melhor amigo”.

A partir de “Depressão: estrutura e funcionamento” – A. Coimbra de Matos

Porque-escolhemos-pessoas-problemáticas-para-amar-Pedro-Martins-Psicoterapeuta

Por que Escolhemos Pessoas Problemáticas para Amar?

O que nos leva a escolher pessoas difíceis para amar?

Em teoria, somos livres para escolher o tipo de pessoa que amamos.

Não nos impuseram uma pessoa. Ninguém combinou o casamento por nós como acontecia no passado.

Mas, na realidade, a nossa escolha é muito menos livre do que imaginamos.

Poderosas restrições sobre quem podemos amar e sentir-nos verdadeiramente atraídos vêm de um lugar para o qual, talvez, não nos ocorra olhar: as nossas infâncias.

A nossa história psicológica predispõe-nos fortemente para amar certos tipos de pessoas.

Nós amamos ao longo de sulcos formados na infância. Procuramos pessoas que, de muitas maneiras, recriam os sentimentos de amor de quando éramos pequenos.

O problema é que o amor que absorvemos na infância provavelmente, não é só composto de generosidade, ternura e bondade.

É provável que o amor estivesse entrelaçado com certos aspectos dolorosos:

– Um sentimento de não se ser suficientemente bom; um amor por um pai que era frágil ou estava deprimido; uma sensação de que não era possível ser vulnerável junto dos pais.

Isso predispõe-nos a procurar na vida adulta parceiros que não sejam necessariamente gentis connosco, mas que – mais importante – nos proporcionem um sentimento familiar.

O que pode ser visto como uma coisa subtil, mas da maior importância.

Podemos ser obrigados a desviar o olhar de possíveis candidatos porque eles não satisfazem o anseio pelas complexidades que associamos ao amor.

Podemos descrever alguém como “pouco sexy” ou “aborrecido” quando na verdade queremos dizer: é improvável que me faça sofrer da maneira que preciso sofrer para sentir que esse amor é real.

É comum aconselhar as pessoas que são atraídas por candidatos complicados a deixá-los e encontrar alguém mais saudável.

Isso é teoricamente tentador mas ao mesmo tempo, praticamente impossível.Não podemos alterar magicamente as fontes de atracção.

Em vez de procurar mudar o tipo de pessoas pelas quais somos atraídos, pode ser mais sensato ajustar a forma como reagimos e nos comportamos com as pessoas complicadas para as quais o nosso passado nos empurra.

Tendemos a procurar na vida adulta parceiros que nos proporcionam um sentimento familiar.

Os nossos problemas são frequentemente gerados porque continuamos a responder às pessoas que nos atraem da maneira que aprendemos a nos comportar enquanto crianças em torno dos nossos modelos.

Por exemplo, talvez os nossos pais ficassem furiosos com frequência e começassem a gritar.

Como os amávamos, reagíamos sentindo que quando estavam enfurecidos, devia ser por nossa culpa. Dessa forma, fomos ficando tímidos e submissos.

Agora, se um parceiro (por quem estamos magneticamente atraídos) se cruza connosco, respondemos como crianças esmagadas e com a testa franzida:

– Sentimos que a culpa é nossa, que somos merecedores de críticas, e assim vamos desenvolvendo ressentimentos.

Talvez nos sintamos atraídos por alguém com um pavio curto – que por sua vez nos faz explodir.

Ou, caso os nossos pais fosse muito vulneráveis e ficassem magoados com facilidade, acabamos por encontrar um parceiro também ele um pouco frágil e que exige que cuidemos dele.

Mas depois ficamos frustrados com a fraqueza dele – andamos em bicos de pés e tentamos encorajá-los e tranquilizá-los (como fizemos quando éramos pequenos), mas ao mesmo tempo, condenamos essa pessoa por não ser merecedora do que fazemos por ela.

“Não podemos mudar os nossos modelos de atracção, mas podemos mudar de um padrão de resposta infantil para um mais adulto.”

Provavelmente, não podemos mudar os nossos modelos de atracção.

Mas, em vez de procurar reprogramar radicalmente os nossos instintos, podemos tentar aprender a reagir a candidatos desejáveis, não como fazíamos quando éramos crianças, mas de uma maneira mais madura e construtiva, própria de um adulto racional.

É possível mudarmos de um padrão de resposta “infantil” para um mais adulto em relação às dificuldades pelas quais somos atraídos.

É possível que estejamos com alguém com um conjunto particularmente complicado de questões que desencadeiam os nossos desejos e os nossos movimentos defensivos infantis.

A resposta não é terminar o relacionamento, mas passa por nos empenharmos em lidar com os desafios que nos colocam, e fazer uso do conhecimento que não dispúnhamos quando estávamos com as figuras de amor da nossa infância.

Não temos muita responsabilidade nas nossas escolhas, mas somos responsáveis por nos comportarmos de maneira mais consciente em torno das áreas menos maduras do nosso parceiro.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: “Why We’re Compelled to Love Difficult People” – Alain de Botton

Qual é o seu estilo de Vinculação? Psicoterapia

Qual é o Seu Estilo de Vinculação? Faça o Teste.

Um dos mais importantes questionários da história da psicologia do século XX teve um início modesto nas páginas de um jornal local do Colorado, “The Rocky Mountain News”, em Julho de 1985.

O questionário desenvolvido por Cindy Hazan e Phillip Shaver (psicólogos da universidade de Denver) pedia aos leitores que indicassem com qual das três afirmações se identificavam quando estavam apaixonados.

A: Eu acho relativamente fácil aproximar-me dos outros e fico confortável dependendo deles, assim como tê-los dependentes de mim. Eu não penso em ser abandonado nem temo que alguém se aproxime demasiado de mim.

B: Eu acho que os outros ficam relutantes em aproximar-se tanto quanto eu gostaria. Preocupo-me muitas vezes com o facto de o meu parceiro não me amar de verdade ou de não querer ficar comigo. Eu quero ficar muito perto do meu parceiro, e isso às vezes assusta as pessoas a ponto de se afastarem.

C: Sinto-me um pouco desconfortável perto dos outros. É difícil confiar completamente neles e permitir depender deles. Fico nervoso quando alguém se aproxima muito, e, com alguma frequência, os outros querem que eu seja mais íntimo do que me sinto confortável a ser.

As opções acima dizem respeito aos três principais estilos de vinculação – Seguro; Inseguro Ambivalente/Ansioso; Inseguro Evitante – identificados pela primeira vez pelo psicólogo e psicanalista inglês John Bowlby, o autor da Teoria da Vinculação, nos anos 50 e 60.

 

Opção A assinala o que é conhecido como um padrão Seguro de vinculação, no qual o amor e a confiança surgem facilmente.

A opção B refere-se ao estilo Inseguro Ambivalente/Ansioso. É o caso em que a pessoa deseja ter intimidade com os outros, mas está continuamente com medo de ser decepcionada e, muitas vezes, precipita crises nos relacionamentos através de comportamentos hostis.

A opção C diz respeito ao padrão Inseguro Evitante de vinculação. Aqui, os perigos da intimidade são evitados através de actividades solitárias e de uma retirada emocional.

 

Se há coisa que devemos fazer para melhorar os nossos relacionamentos, é saber a qual das três categorias, predominantemente, pertencemos, e, olhar para os relacionamentos amorosos à luz desse conhecimento, no sentido de ficarmos mais conscientes das armadilhas em que podemos cair.

Acresce que metade de nós, pelo menos, não está seguro em relação ao amor, o que provavelmente nos coloca entre o evitante e o ansioso, e temos – para complicar ainda mais – uma propensão acima da média para nos apaixonarmos por alguém que corresponde à outra face da moeda, agravando, assim, as nossas inseguranças e defesas.

 

Aqui está uma breve lista do que as pessoas do tipo Evitante e Ansioso devem ter em mente nos seus relacionamentos:

SE FOR TIPO EVITANTE COM UM PARCEIRO ESTILO ANSIOSO

– Reconheça em que medida procura confirmações afectivas quando as coisas são mais profundas, especialmente, quando o outro deseja mais proximidade.

– Veja se tende a preferir sexo e proximidade com “estranhos” e que fica nervoso e/ou incomodado com carinhos e beijos. Provavelmente, você também prefere “fazer as coisas” com a luz apagada.

– Tente perceber se está a sabotar a intimidade a longo prazo.

– Seja compreensivo com o facto de você temer o que realmente quer.

– Pense em como, no seu passado, a proximidade foi assustadora porque as pessoas o decepcionaram e observe como você adoptou uma estratégia de retirada para se proteger. Você não quer fazer mal ao seu parceiro, mas tendo em conta o seu passado, existe alguma probabilidade de isso acontecer.

– Lembre-se de que o presente é diferente do passado e que você, ao trazer receios antigos está a pôr em risco o presente.

– Pode parecer que o seu parceiro está a ser agressivo e mal-humorado consigo sem motivo. No entanto, ele é incapaz de expressar as necessidades de outra forma. É você que ele quer, e é exactamente por isso que se comporta dessa forma.

 

SE FOR ESTILO ANSIOSO COM UM PARCEIRO EVINTANTE

– As coisas não são, necessariamente, tão más quanto parecem.

– O silêncio pode ser apenas silêncio, e não falta de amor. A distância não é maldade, mas a maneira de manter o equilíbrio.

– Veja os ataques como desejo de amor.

– Você não é insensato ou “necessitado” por querer mais; mas a sua maneira de lidar com o que legitimamente precisa está a complicar enormemente as coisas.

– Você está “espicaçar” o seu parceiro ao pedir mais intimidade de forma muito directa. E é provável que o esteja a fazer com alguma dose de raiva.

– Mentalize-se de que precisa ir muito devagarinho e gerir bem a distância no que diz respeito ao seu desejo de proximidade.

– O seu parceiro não é maldoso ou bizarro, mas somente tão afectado quanto você. E isso é muito normal; 40% da população encontra-se nas mesmas circunstâncias.

 

Em termos de conclusão, dizer que é muito importante saber onde nos situamos no que diz respeito aos estilos de vinculação nos relacionamentos afectivos.

Não se trata apenas de um importante conhecimento sobre nós mesmos; a partir dele, caso nos encontremos algures na linha Evitantes/Ansiosos, podemos e devemos actuar para que os nossos relacionamentos não sejam postos em causa, possam prosperar e trazerem-nos o retorno desejado.

 

haunting

www. Ghosting, Haunting e Benching. com

Ghosting, haunting e benching: as práticas das novas relações

“Numa época em que a sociedade está repleta de meios de comunicação que permitem, cada vez mais rápido, estar em contacto com outros, nunca foi tão fácil conhecer e esquecer pessoas. Abre-se o Facebook, o Instagram ou até o Tinder e basta enviar uma mensagem, pedir para seguir ou “gostar” para que se possa estar em contacto com alguém. Ao mesmo tempo que isso acontece, as relações profundas tornam-se caminhos mais difíceis de encontrar. As redes sociais, as aplicações de encontros e, mais importante, a maneira como são usadas, têm cada vez mais impacto nas relações que vivemos: o ghosting, o haunting e o benching são só algumas das novas práticas que ganharam nome nos últimos anos, graças à sua visibilidade, e à maneira como as pessoas vivem as suas relações nesta nova era.”

Tive muito gosto em conversar com a jornalista Adriana Claro da “MAGG” sobre as práticas das novas relações.

continuar a ler: https://magg.pt/2018/04/03/ghosting-haunting-e-benching-as-praticas-das-novas-relacoes/

 

ghosting

Ghosting – O Novo Mundo das Relações

O vocábulo ghosting foi eleito pelo dicionário britânico Collins como uma das palavras do ano de 2015. Derivada do inglês ghost (fantasma), o termo tem sido usado para designar uma forma de terminar relacionamentos (inclusive, quando, aparentemente, tudo está bem) na era digital em que a pessoa desaparece, tal qual um fantasma, e deixa de responder às mensagens dos aplicativos e redes sociais, eximindo-se de dar qualquer explicação.

O ghosting está intimamente ligado à forma superficial como a maioria das relações on-line é construída. Não é, portanto, de estranhar que a maneira como certos relacionamentos terminam esteja em linha com a forma como começam.

O facto de tudo se passar muito rapidamente, impede o aprofundamento. Sem tempo para as pessoas se conhecerem melhor (essência das relações), os relacionamentos não se consolidam.

Numa altura que o vídeo e a fotografia estão tão presentes no nosso dia-a-dia é natural que a imagem tenha um peso muito grande. O “match” que por vezes está na base de alguns relacionamentos deu-se através de uma “imagem” que editei de mim próprio e que atraiu o outro. Se eu mostrar a minha “imagem” não editada a atracção acaba? Posso mostrar quem realmente sou? Receando as respostas, o aprofundamento fica comprometido, e sem isso é espectável que as relações durem pouco. Começar / Terminar acaba por ser apenas mais um aspecto dentro deste modelo de relacionamentos.

 

A Conexão é muito mais frágil que o Vínculo

Actualmente estamos todos conectados uns com os outros mas o número de vínculos é cada vez menor. O vínculo é um tipo de ligação mais profunda. A conexão pode ser vista como estar em “contacto com”, e a vinculação como uma união. A união-relação pressupõe a criação de uma quantidade de vias que me ligam ao outro e nas quais circulam os afectos.

Nós precisamos das relações para nos conhecermos e para nos alimentarmos afectivamente. Os relacionamentos são uma espécie de espelho que nos devolve a imagem do que somos mas, tendo em conta que são também um alimento, do que poderemos vir a ser. Se não se aprofundam as relações, perpetua-se a fragilidade – nas pessoas e nos relacionamentos.

Os outros são um espelho onde nos vemos, mas essencialmente, onde nos conhecemos e reconhecemos. Se o espelho que me valida não tem uma presença continuada (porque se afasta ou eu me afasto dele) não consigo avançar, porque a cada 10 segundos paro para perguntar: “Espelho meu, espelho meu, há alguém mais bonito que eu?”.

 

“Saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.”

O desaparecer sem deixar rasto não é novo. O mítico episódio “foi comprar cigarros e não voltou” perdeu o glamour cinematográfico e caminha para uma banalidade assustadora. Actualmente 50% dos homens e das mulheres referem terem sido alvo de ghosting, e um número aproximado praticou.

 

O que leva a fazer Ghosting?

Entre as principais razões podemos encontrar:

– Imaturidade emocional: “Eu não compreendia exactamente o que sentia, então, em vez de tentar falar, eu ghosting (desapareci).”

– Evitar o confronto.

– Nos casos em que se desenvolveu uma empatia é mais difícil terminar.

Quanto mais isto acontece, mais as pessoas ficam insensíveis a isso, e a probabilidade de que o reproduzam aumenta.

 

Como se sente alguém que foi ghosted?

– A impossibilidade de encerrar pode ser considerada “enlouquecedora” (no sentido de não poder ser pensada; de não ter uma lógica).

– Pode ser uma experiência traumática (que leve a fugir de novas relações)

– Aquele que é deixado sofre ainda mais devido à indiferença. Pior do que ser deixado é perceber que o companheiro nem sequer achou que valesse a pena “terminar”.

– Paralisado e impotente. O ghosting não dá nenhuma pista para reagir. A pessoa fica sem conseguir lidar com a situação porque não sabe o que verdadeiramente se passou.

– O ghosting é uma forma de crueldade emocional porque a possibilidade de reagir é restringida. Não me sendo dada a possibilidade de fazer perguntas, de arranjar elementos que me ajudem a construir uma narrativa para o sucedido, eu posso ficar enredado numa quantidade de “porquês” (que podem conduzir a uma culpabilização). Perante esta situação eu fico impedido de processar emocionalmente a experiência de rejeição e de perda.

– A ausência do outro impede-me de expressar, de exteriorizar em direcção a ele o que estou a sentir. Impede-me de gritar, de partir pratos, de protestar, enfim, ser ouvido (a existir; sou ouvido logo existo). Este processo de nos “defendermos do ataque” desferido por aquele que nos rejeita é fundamental para a preservação da auto-estima. Numa situação de ghosting é provável que em vez de pôr em causa a relação eu próprio me coloque em causa.

 

A vida continua

Embora trabalhos recentes mostrem que uma percentagem dos sujeitos acha o ghosting aceitável em algumas circunstâncias (relações curtas), a maioria considera que se trata de uma atitude inaceitável.

Para algumas pessoas o ghosting pode ser uma experiência devastadora. Apesar disso, as pessoas mais maduras e equilibradas emocionalmente conseguem com maior rapidez encontrar uma saída para esta situação. A capacidade de rever os acontecimentos, de compreender e aceitar o papel que desempenhámos no relacionamento, permite, não só sair da situação mais rapidamente como desenvolver um faro para reconhecer situações semelhantes.

 

O Ghosting é muito frequente?

Nos trabalhos de Freedman et al. recentemente publicados no Journal of Social and Personal Relationships, 25% dos participantes referem que foram alvo de ghosting, e 20% indicaram que o praticaram aos companheiros.

Sem surpresa, a maioria dos sujeitos referiram que o ghosting é uma forma inaceitável de terminar uma relação. No entanto, quanto mais curta a relação mais aceitável.

 

Quem está mais susceptível ao Ghosting?

Entre os vários factores que podem influenciar o ghosting, Freedman et al. analisaram as crenças acerca dos relacionamentos.

As pessoas que acreditam no destino – “Se um relacionamento está destinado a resultar, ele irá resultar, e se não estiver, ele falhará”-, são mais propensas a olhar para o ghosting como aceitável.

Por outro, as pessoas que acreditam no crescimento das relações, que consideram que os bons relacionamentos exigem trabalho, e que o sucesso de um relacionamento depende do esforço do casal, consideram o ghosting inaceitável.

É provável que aqueles que têm uma vinculação insegura e personalidades narcísicas  possam recorrer mais ao ghosting como forma de terminar um relacionamento.

 

Culpados e inocentes

Não temos números que nos digam que o ghosting acontece mais agora, mas é razoável assumir que na era digital, e tendo em conta novos contextos de relacionamentos (on-line dating), a probabilidade de algumas pessoas, simplesmente desaparecerem, seja maior.

Não entrando em comparações entre aquele que pratica e aquele que foi sujeito ao ghosting, ambos podem ser vistos como vítimas desta nova era onde reina o individualismo e as pessoas são vistas como objectos descartáveis.

a arte de se separar ou ficar junto

A difícil arte de estar junto (ou de se separar)

Balint – Ocnofilia e Filobatismo 

Namoros, casamentos, empregos, ideias, relações eróticas, e toda uma variedade de coisas com que nos relacionamos têm fim.

Como pode então uma situação tão à mão de todos os mortais, um assunto tão discutido, do charlatanismo à filosofia, causar desastres quando faz a sua chegada?

Porque não conseguimos deixar os outros partirem, transformando anos, décadas de amor, apego e suporte em ódio, indiferença e vingança?

A “resposta” está relacionada com duas posições básicas que começam no bebé e, cristalizadas, podem às vezes permanecer no adulto, gerando ansiedade, angústia e fazendo com que muitos de nós se transformem em “escravos” nos relacionamentos.

Balint recorre ao mundo infantil (brinquedos e/ou brincadeiras que causam arrepios, como por exemplo a montanha-russa) para nos ajudar a compreender a existência de duas posições no que diz respeito à relação como o objecto – (o objecto é uma representação mental de um objecto externo, um sujeito/outro/pessoa*).

Balint dá particular atenção a uma questão notória: o facto de que para alguns esses brinquedos/brincadeiras são fonte de intenso prazer, enquanto outros mal podem pensar em sentir o tal arrepio e frio na barriga. Guardemos essas duas reacções (aparentemente) antagónicas – elas são a base para o núcleo do pensamento neste trabalho.

Numa clara discordância de Freud (e Melanie Klein), Balint não acredita na existência do narcisismo primário, ou seja, o investimento total do bebé em si mesmo nos primeiros meses de vida de modo a que pense ser o único ser do mundo e o criador de todos os objectos*.

Para Balint, esse mundo inicial já é um mundo de relação com o outro, mas nele os outros atendem às necessidades do bebé de maneira incondicional. Os outros seguram-no, amamentam-no, o sustentam (no sentido físico), suportam a sua existência em toda a sua (do bebé) fragilidade.

Façamos agora a síntese dessas duas proposições:

Quais seriam as reacções possíveis do bebé ao perceber que os objectos* não existem para servi-lo? Que falham, têm vida e desejos próprios.

São duas as reações:

Ou se “penduram” no outro* para não o deixar escapar ou criam mecanismos para viver sem ele.

As duas posições básicas:

Balint dá tanta importância à sua descoberta que propõe duas palavras novas para descrever cada uma das respostas do bebé, às vezes também presentes nos nossos pacientes adultos; duas posições estas que são uma reacção à descoberta dos outros como autónomos.

Para o primeiro caso, a palavra proposta é ocnofilia, que vem de um radical grego que significa pendurar-se, encolher-se, hesitar (implícito aqui de que isso aconteça por medo, vergonha ou pena em relação a um outro. Este é o bebé que não gosta de andar na montanha-russa (metaforicamente falando): ao descobrir que os outros* não o servirão de forma incondicional para o resto da vida ele – cria mentalmente -, a possibilidade de se pendurar neles, quer eles queiram quer não.

Ou seja, para o ocnofílico, as distâncias são desesperantes, uma terrível ameaça e um vazio indizível. Apenas firmemente preso aos outros, ele pode viver e serenar a sua angústia.

A outra posição, advinda do mesmo problema é chamada de filobatismo.

Balint faz um mergulho nos significados arcaicos do radical desta palavra, mas para quem fala português o melhor é pensar no paralelo com a palavra acrobata. Este é o bebé que – cria mentalmente a ideia de que – não precisa dos outros*; melhor dito, que vive melhor sem eles. Ele confia no ambiente e em si e sente que a ameaça vem dos outros* que se aproximam dele. É um mundo inteiro “estruturado por distância segura e visão/observação”.

O filobata confia no mundo, nas distâncias. O problema surge quando necessita negociar com um outro que se impõe. Entretanto ele não despreza o outro: O filobata cuida dos outros. Na verdade ele transforma-os para o seu uso (e por isso cuida deles). O filobata não precisa dos outros, pelo menos, nenhum em particular.

Não parece difícil concordar com o autor: tudo o que é pensado aqui remete para questões muito primárias. O encontro com o mundo externo independente e com a consequente pergunta “e agora, o que vou fazer se o mundo se recusa a atender, de maneira absoluta, todos os meus desejos?”.

As duas saídas propostas são a ocnofílica e a filobática, ambas insatisfatórias, com seus prós-e-contras, se é que podemos falar assim, e que se tornam claras a partir do pensamento dos skills que cada posição desenvolve.

O ocnofílico tem os outros* como objectivo e desenvolve skills visando “um caminho eficiente para se pendurar e talvez (…) um método custoso para ser aceite pelo outro* como um tipo de parasita”. É uma técnica relativamente efectiva. O seu ponto fraco encontra-se no facto de que “o seu verdadeiro desejo nunca pode ser alcançado pelo estar colado ao outro*. O verdadeiro desejo é o de ser seguro pelo outro* e não o de pendurar-se desesperadamente nele”.

Já para o filobata o mundo é bem diferente. Desde que as coisas não fiquem demasiado complicadas, ele, o acrobata, sente-se imensamente seguro voando pelos céus. O risco encontra-se nos outros*, que não podem satisfazê-lo e são, por isso, perigosos.

Encontra segurança em relações em que faz dos outros* equipamentos que estão sempre dispostos a servi-lo nas suas acrobacias e por isso são, pelo filobata, muito bem cuidados.

Agora, claro, dada a característica primitiva das duas posições é inevitável, para Balint e para nós, falar de dois sentimentos também primitivos, avassaladores e conectados: amor e ódio. (brevemente)

 

 

Este post teve por base excertos (modificados) de:

A difícil arte de estar junto (ou de se separar) – Luis Fernando Santos

Teoria da vinculação

A influência da vinculação nas relações amorosas

As relações de vinculação na infância apresentam fortes semelhanças com as relações de cariz amoroso na idade adulta, sendo as primeiras prototípicas das últimas.

Ao longo do desenvolvimento do ser humano, a complementaridade de papéis vai dando lugar à reciprocidade, as representações internas vão adquirindo maior relevo e articulação com a manifestação dos comportamentos de vinculação.

A necessidade de presença física, para obtenção de conforto e segurança em situações de adversidade, vai sendo substituída, progressivamente, pela presença simbólica ou pela interacção à distância (Fonseca, Soares, & Martins, 2006).

Os padrões de vinculação manifestados por um adulto dependem de variáveis como:

– a idade, o género e as experiências vivenciadas com as figuras de vinculação nos seus primeiros anos de vida.

Habitualmente, uma relação de vinculação persiste ao longo do ciclo vital do indivíduo.

Muito embora durante a adolescência as vinculações da infância possam atenuar-se ou serem até substituídas por novos vínculos, as primeiras não são facilmente abandonadas, sendo comum persistirem na idade adulta (Bowlby, 1982).

As relações de vinculação na infância apresentam fortes semelhanças com as relações de cariz amoroso na idade adulta.

Assim, uma nova vinculação a outra figura, nomeadamente a um companheiro amoroso, não significa necessariamente que a vinculação às figuras parentais tenha cessado.

Na verdade, verifica-se uma relação causal significativa entre as experiências de um indivíduo com as suas figuras parentais e a sua capacidade para estabelecer vínculos afectivos posteriores.

Assim, o estilo de vinculação construído nos primeiros anos de vida mantém-se e irá moldar o padrão de relacionamentos estabelecidos na adultícia.

A Escala de Vinculação do Adulto (EVA) apresenta resultados consistentes com a teoria de que a qualidade das relações precoces prevê as interacções num contexto amoroso nas suas relações futuras (Dinero, Conger, Shaver, Widaman & Larsen-Rife, 2011).

Mais concretamente, indivíduos categorizados como inseguros revelaram-se mais propensos a exibir emoções negativas e a mobilizar estratégias inadequadas, durante situações conflituosas com um parceiro.

Hazan e Shaver (1987) salientam paralelismos entre as relações de vinculação primárias e as relações amorosas na idade adulta.

Estas efectivam-se na concepção de que na adultícia a relação com o outro poderá constituir-se como promotora de segurança, na medida em que o indivíduo procura proximidade em situações avaliadas como ameaçadoras, recorrendo ao outro para readquirir uma percepção de competência pessoal e uma capacidade de exploração do mundo.

Ao conceptualizarem as relações íntimas como relações de vinculação, Hazan e Shaver identificaram três estilos de vinculação na idade adulta, semelhantes aos de Ainsworth.

O estilo de vinculação construído nos primeiros anos de vida mantém-se e irá moldar o padrão de relacionamentos estabelecidos na adultícia.

Estes designam-se por estilos de vinculação Seguro, Inseguro Ambivalente/Ansioso e Inseguro Evitante, associados a formas distintas de vivenciar o relacionamento amoroso.

Neste sentido, foi elaborado um modelo bidimensional composto por eixos dicotómicos compostos por modelos de si e modelos dos outros.

Da interface destes dois eixos surgem quatro estilos de vinculação, sendo estes Seguro, Inseguro Preocupado, Inseguro Evitante Desligado e Inseguro Evitante Amedrontado.

Indivíduos com estilo de vinculação seguro apresentam modelos positivos de si e dos outros, manifestando baixos níveis de ansiedade e evitamento face à intimidade com o outro.

Estes indivíduos caracterizam-se pela valorização das suas relações íntimas, através de uma capacidade de as manter sem prejuízo da autonomia pessoal, destacando-se uma coerência das narrativas das suas relações.

Por sua vez, indivíduos com um estilo de vinculação inseguro evitante desligado possuem um modelo positivo do self e negativo dos outros, minimizando as suas percepções subjectivas de angústia ou de necessidades sociais, negando defensivamente a necessidade ou o desejo de relacionamentos próximos.

Assim, na regulação emocional e no comportamento interpessoal, manifestam um baixo nível de ansiedade mas um elevado evitamento de proximidade, decorrente das expectativas negativas que têm dos outros.

Mostram ainda um elevado sentido de mérito pessoal, negando o valor das relações íntimas e exacerbando a estima pela independência.

Tanto os indivíduos inseguros preocupados como os inseguros amedrontados detêm um profundo sentido de auto-desmerecimento.

Indivíduos com um estilo de vinculação inseguro preocupado apresentam um modelo negativo do self e positivo dos outros, manifestando uma elevada ansiedade e um baixo evitamento face à proximidade.

Já indivíduos com estilo de vinculação inseguro evitante amedrontado operam através de modelos negativos de si e dos outros.

Encaram-se como não merecedores do amor dos outros, manifestam uma elevada ansiedade e evitamento, mas possuem um desejo consciente de contacto social que é inibido por medos associados às suas consequências.

Ou seja, na regulação emocional e no comportamento interpessoal, são indivíduos que apresentam uma elevada dependência dos outros contudo, devido às expectativas negativas que deles têm, evitam a intimidade para evitarem o sofrimento de uma eventual perda ou rejeição.

Em muitas situações o sujeito não tem consciência de que está a ser manipulado pelas suas experiências passadas.

Os modelos representacionais de figuras de vinculação e do eu que um indivíduo constrói durante a sua infância e adolescência tendem a persistir até e durante a vida adulta.

Esta manutenção das representações de vinculação pode apresentar como consequência uma tendência para apreender uma nova pessoa, com quem pode construir um vínculo afectivo, sustentado num modelo existente, continuando frequentemente apesar de repetidas evidências de que o modelo é inadequado.

Tornando-se cada vez mais desadequado, o indivíduo espera ser percebido e tratado de um modo coerente ao seu modelo do self, permanecendo com tais expectativas apesar de evidências contrárias.

Tais percepções e expectativas distorcidas conduzem a falsas crenças acerca dos outros, falsas expectativas acerca do modo como os outros se comportarão e a atitudes inadequadas, com a intenção de frustrar o comportamento do outro.

A título de exemplo, um sujeito que durante a sua infância foi frequentemente ameaçado de abandono pode precipitadamente atribuir intenções semelhantes ao seu companheiro amoroso.

Assim, interpretará os comportamentos do cônjuge, como o que este diz ou faz, em função dessas intenções que lhe atribuiu e tomará uma iniciativa que julgue ser a mais adequada para enfrentar a situação que acredita existir, permanecendo equívocos e conflitos no seio da relação amorosa.

Em todo este processo, o sujeito não tem consciência de que está a ser manipulado pelas suas experiências passadas, nem de que as suas crenças e expectativas actuais são infundadas.

O conteúdo cognitivo estabelece-se como extremamente relevante na consideração das respostas disfuncionais no seio dos conflitos, considerando que a adesão a crenças irrealistas, especificamente a respeito da natureza dos relacionamentos, é indicadora de um nível de perturbação das relações.

Este post foi composto com excertos do trabalho de Sara Damas:

“Relação entre os Estilos de Vinculação do Adulto, os Esquemas
Precoces Desadaptativos e as Relações Interpessoais.”

psicoterapeuta

A importância da Vulnerabilidade

Há aspectos nossos que ao serem expostos a uma crítica pouco simpática podem resultar em humilhação.

Visto de perto nenhum de nós é impressionante. Ficamos acanhados, agitados, irritáveis e mal-humorados.

Sobre a pressão de certas situações gritamos, batemos com as portas e deixamos sair os nossos lamentos.

Vamos contra portas de vidro e damos quedas aparatosas na rua, aumentando a nossa colecção de episódios constrangedores.

Estamos constantemente preocupados como os outros nos vêem.

Desejamos o amor, mas somos distantes e pouco sensíveis com aqueles que nos são próximos.

Somos desajeitados nos nossos esforços para seduzir e dignos de pena na busca de atenção.

Os nossos corpos estão cheios de minudências e vulnerabilidades. De certos ângulos somos verdadeiramente embaraçosos.

Lutamos para esconder todas essas coisas. O nosso idiota interno é monitorizado com muito cuidado e implacavelmente silenciado.

Aprendemos desde os primeiros anos que a prioridade, quando se trata de vulnerabilidade, é disfarçá-la completamente. Sem arrependimento usamos o que podemos para parecer serenos, para apagar evidências das nossas tontices e para tentar aparentar sermos muito mais “normais” do que achamos que somos.

Estamos constantemente preocupados como os outros nos vêem.

Estamos, compreensivelmente, muito focados nas partes más da vulnerabilidade.

No entanto, a vulnerabilidade tem lados muito profundos e significativos.

Há momentos em que revelar fraquezas, longe de ser uma catástrofe, é a via para criar uma conexão.

Em certas situações podemos arriscar explicar, com rara franqueza, que estamos com medo, que às vezes nos sentimos mal e que fizemos muitas coisas disparatadas.

E ao invés de afugentarmos o outro, essas revelações podem servir para que nos vejam como mais humanos e, quem sabe, sentir que as suas próprias vulnerabilidades têm eco na vida dos outros.

Noutras palavras, as vulnerabilidades podem ser a primeira pedra de uma amizade, uma amizade propriamente dita, e não apenas um processo de admiração mútua, como troca de simpatias e consolos perante as dificuldades da vida.

Também há, é claro, formas más de lidar com a vulnerabilidade:

– Quando de forma agressiva impomos aos outros ajuda, ou quando as nossas falhas se repetem constantemente, ou quando ficamos mais perto da raiva ou da histeria, do que da tristeza e da melancolia.

A vulnerabilidade tem lados muito profundos e significativos.

A boa vulnerabilidade não espera que a outra pessoa resolva as nossas dificuldades.

Nós deixamos que eles vejam uma parte complicada de quem somos, simplesmente, na esperança que eles se sintam encorajados e mais confortáveis com eles mesmos para mostrar as partes que costumam esconder.

A boa vulnerabilidade é fundamentalmente generosa:

– Precisa do primeiro passo para ser revelada, assim como para torná-la mais segura para que as outras pessoas possam libertar-se e revelar algo do seu próprio Eu. É um presente em forma de um risco tomado por outra pessoa.

Para além disso, mostrar a vulnerabilidade é uma forma curiosa de mostrar quem nós somos, pois apesar das coisas embaraçosas, estamos longe de sermos vistos como ridículos ou dignos de pena.

Somos, pelo contrário, fortes o bastante para sermos fracos.

Deixamos que os nossos disparates e idiotices, a nossa raiva e a nossa tristeza sejam vistas, com a confiança de que essas características não têm que ser o veredicto final de quem nós somos.

É uma pequena tragédia gastar tanto tempo das nossas vidas a lutar para esconder as fraquezas, quando compartilhar abertamente a nossa vulnerabilidade é a via para que a amizade e amor possam acontecer.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins
A partir de Alain de Botton “The importance of vulnerability”

Pensamento mágico. Pedro Martins Psicólogo clínico Psicoterapeuta

Pensamento Mágico

O termo pensamento mágico designa o pensamento que se apoia numa fantasia de omnipotência para criar uma realidade psíquica …

Identificação Projectiva. Pedro Martins - Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Identificação Projectiva

Em situações desconfortáveis com outra pessoa, por vezes é difícil saber de onde vem o desconforto, de nós ou do outro. …

Adoecer Mentalmente. Pedro Martins Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Adoecer Mentalmente

Adoecer Mentalmente: Durante bastante tempo podemos conseguir lidar suficientemente bem com as coisas. Conseguimos ir trabalhar …