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psicólogo clínico dinheiro

A função do dinheiro em Psicoterapia

Luciano Lutereau refere que o dinheiro na psicoterapia* tem uma função particular. O pagamento de uma sessão não corresponde à simples troca de um honorário por um serviço. O tempo não pode ser comprado.

O pagamento da psicoterapia não corresponde à mera troca de um honorário por um serviço porque o tempo não pode ser comprado.

Lembro-me de uma situação em que um homem, em certa ocasião, queria incluir a sua psicoterapia nos seus bens de consumo (era um homem rico) e disse: “Se eu aqui pago…” e eu respondi ” O que está a pagar? Está a pagar por uma coisa certa, mas creio que não saiba do que se trata; mas pelo meu tempo não é, vale mais do que uma fortuna e não o dou a troco de nada, mas porque eu quero”.

Dar tempo é dar o que não se tem. Falta sempre tempo, por isso dar tempo afasta a terapia da questão monetária, porque, antes de mais, o terapeuta oferece amor.

A relação com o terapeuta é uma relação amorosa, como qualquer outra. Alguns pacientes começam a irritar-se, em determinados momentos, com o uso de dinheiro para pagar as sessões. Eles sentem que o amor se degrada (e, portanto, às vezes incluem algum outro presente para que o dinheiro não seja tudo: um livro, um vinho ou um simples “obrigado” para dizer adeus).

A atitude do obsessivo é o oposto: ele gosta dessa degradação. E, assim, procura depreciar o amor de que se sente dependente. É possível receber amor sem sentir dependência? Não é o paciente que ama, mas o terapeuta. Eventualmente pode acontecer que o paciente desencadeie uma forma de amor (e não apenas a paixão) pelo terapeuta, mas, nestes casos, é uma defesa contra o amor do terapeuta.

Uma certa forma de gratidão também pode ser entendida como defesa. Quando um paciente diz: “com tudo o que eu lhe devo”, temos uma questão a resolver, pois a terapia pode encaminhar-se para algo que a mãe lhe disse: “tudo que eu fiz para ti”.

A psicoterapia vai em sentido contrário dessa gratidão. Por isso é que o dinheiro é necessário. A função do dinheiro na terapia é parcializar a dívida que se sente com o amor do terapeuta. E é desejável que a dívida seja paga com dinheiro, porque se não for paga em dinheiro, terá custos mais elevados para paciente e terapeuta.

Assim pode entender-se porque é necessário, eventualmente, o aumento dos honorários. Não é uma indexação de acordo com a inflação do país, mas a alteração (que nem sempre é um aumento, também pode ser uma diminuição) tem como lógica intervir na dívida para com o terapeuta.

Vejamos outras situações: aqueles que, por vezes, fazem terapia sem pagar, e voltam um pouco mais tarde para nos pagarem. O dinheiro está a queimar-lhes nas mãos! Porque se não pagarem com dinheiro, temem ser capturados pelo amor do terapeuta. Por isso se compreende que alguns pacientes não possam suportar ter uma dívida com o psicoterapeuta, mas também existem outros pacientes que precisam dela!

Numa psicoterapia analisa-se a posição do paciente a respeito do amor do psicoterapeuta. Suas formas defensivas de responder a esta oferta (porque todos os terapeutas trabalham de graça!), e como se concretizam essas defesas através do pagamento (que podem ser em dinheiro ou equivalente). Se paga para que essa dívida com o amor não seja insuportável, e, onde essa dívida não ocorre, a terapia fica coxa.

Certa vez fui procurado por uma pessoa que definiu que viria falar comigo duas ou três vezes. No final fez o pagamento e, como não tenho o hábito de contar o dinheiro, só mais tarde verifiquei que me tinha pago a mais. Liguei-lhe para o informar do sucedido. Disse-me que não se tinha enganado, que tinha feito de propósito. Apesar de neste caso ser pouco provável, gostava que ele regressasse e pudesse compreender o propósito, a sua forma de lidar com o amor.

* Psicoterapia Psicodinâmica

Independência: Como ser emocionalmente Independente Pedro Martins Psicoterapeuta Psicólogo Clínico

Independência: Como ser emocionalmente Independente

Há uma condição determinante para alcançar a independência: uma boa dependência.

Só experienciando uma dependência segura na relação com o outro podemos interiorizar um sentimento de segurança, condição necessária à independência.

Aqueles que necessitam certificar a sua independência perante o outro, são os que estão presos numa dependência má.

Uma vez que não conseguiram/não lhes foi permitido separar-se/autonomizar-se, o “outro” representa uma espécie de ameaça; algo do qual é necessário manter distância para não se sentir dependente.

Se a minha fome nunca é saciada fico eternamente preso à fonte de alimento.

Mas se eu for devidamente alimentado terei energia suficiente para ir buscar alimento a outra fonte e não ficar dependente de uma única fonte.

Em termos de relacionamentos poderíamos dizer que obtendo alimento afectivo suficiente junto dos pais/cuidadores – relação primária -, terei energia para procurar alimento afectivo junto de uma parceira – relação adulta.

Muitas psicoterapias são interrompidas porque os pacientes começam a sentir-se dependentes.

É caso para dizer que ainda procuram a boa dependência, mas como só conhecem a má dependência, receiam desenvolver uma relação mais profunda, ou seja, ficarem dependentes.

Se o terapeuta não compreender os medos de dependência do paciente e falar sobre eles nas sessões, a psicoterapia, muito provavelmente, será interrompida.

As relações saudáveis não causam dependência. Elas proporcionam espaço para vivermos estados de dependência quando precisamos ser cuidados, e espaço para crescer e nos autonomizar-mos.

psicoterapia lisboa

O seu psicoterapeuta é demasiado simpático?

O artigo Is your therapist to nice? fez-me recordar uma expressão que vem dos tempos da faculdade: “Terapia de Chá e Bolinhos”, e que diz respeito às psicoterapias em que os pacientes saem sempre felizes e contentes da sessão; com o sentimento de estarem em perfeita sintonia com o psicoterapeuta e de receberem excelentes conselhos para resolver os seus problemas.

O seu terapeuta concorda sempre consigo? Está constantemente a elogiá-lo? Sorri e gesticula com frequência em sinal de aprovação? Já reparou que sai quase sempre bem-disposto da sessão? Estes podem ser sinais de que o seu terapeuta é solidário, empático, cuidador e preocupado com o que se passa consigo, ou, sinais de que o seu terapeuta é excessivamente amável.

Se o seu psicoterapeuta é demasiado simpático talvez esteja na altura de procurar um novo.

Consideremos os riscos para a terapia resultantes de ter um terapeuta demasiado simpático:

É muito gratificante termos alguém que concorda sempre connosco, principalmente se ao longo da vida fomos sistematicamente contrariados. Esta atitude do terapeuta pode ir ao encontro do nosso desejo de finalmente termos alguém que concorde connosco, mas assim que surgir alguma pessoa que discorde voltará tudo à estaca zero. Isto acontece porque as atitudes do terapeuta não passam de “festinhas ao ego” não produzindo qualquer tipo de mudança estrutural.

A questão deve ser olhada de outro ângulo. Devido a vários impedimentos não conseguimos reagir da forma desejada contra as pessoas que invariavelmente fizeram com que as suas ideias, valores e escolhas se sobrepusessem às nossas, e dessa forma, contribuíram para o desenvolvimento de sentimentos de inferioridade. O importante é encontrar uma maneira de respondermos a essa desconsideração e assim recuperar a auto-estima que foi sendo esmagada.

Ao mesmo tempo, esta atitude do terapeuta faz aumentar os sentimentos de dependência negativa (também existe a positiva). Uma vez que as coisas acontecem a um nível superficial o paciente está sempre necessitado de um reforço positivo. É como se estivesse a comer alimentos pouco nutritivos (chá e bolinhos) e por isso está constantemente com fome. Não lhe é dado um alimento afectivo que o possa deixar saciado por mais tempo.

Por outro lado, se pensarmos objectivamente, a constante concordância não existe na vida real. Logo é uma fraude que põe em causa um dos pilares da psicoterapia: A Verdade.

Se o paciente teve pais muito intrusivos, excessivamente preocupados, que tinham opiniões sobre tudo e sobre nada, é natural que o seu Eu tenha sido formatado de forma muito rígida. Mas isso quer também dizer que está desejoso que o terapeuta lhe diga o que deve fazer, afinal foi assim que viveu toda a vida – a seguir as escolhas dos outros.

Nesse sentido é importante criar um espaço de liberdade que permita antes de mais questionar, abrir a porta à dúvida, considerar outros ângulos, outras perspectivas. Na maioria das vezes o paciente constrói uma narrativa que contraria a que lhe foi imposta, a única que tinha sobre si mesmo.

Muitos de nós tivemos pais que ficaram muito aquém do desejável. Nalguns casos podemos mesmo falar em maus pais. De qualquer forma, essa questão não se ultrapassa com novos pais (de preferência bonzinhos), mas reconhecendo que na maioria das vezes a maldade dos pais ficou a dever-se a algo que existia neles e que não foi provocado pela nossa maldade.

Chá e Bolinhos sabem muito bem. Sabem ainda melhor em boa companhia.
Mas a vida é muito mais do que isso. E a terapia também!

relação psicoterapia

Adiar o início da Psicoterapia

Caminhando entre as insondáveis razões que levam as pessoas a adiar o começo de uma psicoterapia, deparamos com várias que, apesar de reconhecerem a necessidade, optam por coisas, digamos, menos convencionais. Tenho algo contra? Nada a opor, se forem uma ajuda. Na maioria das vezes não são uma ajuda, e quando o são, por norma é temporária (o seu efeito é proporcional à relação que se estabelece). Porque as pessoas optam por elas? Posso pensar que as considerem mais rápidas, mais baratas, mais eficazes, etc. Mas pode ser que uma das razões possa assentar no tipo de relação que se estabelece (ou não).

Recordo uma jovem mulher que recebi e que se mostrou muito interessada em discutir a minha orientação. Ainda que de forma superficial conhecia as principais correntes psicoterapêuticas. Para além disso conversamos um pouco sobre ela e sobre a sua vida. Ao falar-me das suas relações compreendi melhor o grande interesse sobre a minha orientação e até que ponto eu fazia uso das teorias.

Para ela se sentir segura era fundamental que existisse algo que a pudesse manter separada dos outros. Um muro de betão, um vidro ou uma fina película, conforme o género de relação.

No nosso caso queria assegurar-se que entre mim e ela existiria uma teoria que nos separava. Ficaria mais segura em saber que não era eu (a nossa relação) que a estava a ajudar mas a teoria.

As suas relações (defeituosas, intrusivas, insuficientes) levaram a que as conexões emocionais se fossem reduzindo e sujeitas a um grande escrutínio. Antes de entrar precisava saber o que ia encontrar. Por norma não é possível saber o que vai acontecer, antes de acontecer. Na ausência desse conhecimento fazia uso do conhecimento adquirido, supondo que, seguramente – para o bem e para o mal – se ia repetir.

Mas por muitas voltas que se dê, aquilo que foi estruturado na interacção com o “outro” só na relação com o “outro” pode ser modificado, através de uma nova, fresca e sadia via de conexão emocional.

neurónios em espelho

Neurónios Espelho – Da Telepatia à Empatia

Como sabemos o cérebro é um órgão construído por e, para a relação e comunicação; e agora sabemos que os neurónios espelho são a parte do cérebro especificamente destinada a essa missão.

As primeiras experiências em símios mostraram que os neurónios espelho não se excitavam unicamente quando o símio realizava uma acção dirigida a um fim, mas também quando observava que outro símio (ou humano) a executava. Daí que se tenha definido esta nova função desta classe de neurónios com a expressão “o símio observa o símio faz” e que agora tem a definição de neurónios em espelho.

A importância desta descoberta para a compreensão da mente humana é tal que foi comparada com a representação que teve o ADN para a neurobiologia.

O que incrementou enormemente o interesse pelos neurónios em espelho foi o facto de que eles não se excitam apenas quando o sujeito observa actos motores realizados por outras pessoas, mas também quando observa expressões faciais ou escuta tonalidades vocais que manifestam emoções.

Actualmente começa-se a falar mais em “sistema em espelho” do que em neurónios espelho, pois parece que todo o cérebro faz parte deste sistema.

Gallese, Eagle e Migone (2007) falam em simulação incorporada como o processo que faz com que quando percebemos os gestos e as expressões faciais dos outros, ou escutamos o tom da sua voz, compreendemos a emoção que o outro está a experimentar, não por inferência ou analogia, mas directamente, uma vez que se produz em nós – automática e inconscientemente – um estado corporal que compartilhamos.

Em todas as esferas dos processos mentais – emoções, sensações e intenções – que sejam expressas através de actos intencionais, de expressões faciais ou da linguagem, a percepção activa nos observadores, mediante os neurónios em espelho, os mesmos circuitos neuronais que se activam no sujeito observado. Ou seja, o cérebro do observador reproduz aquilo que está a observar, estabelecendo-se assim, uma linha directa de comunicação entre sujeitos.

Merece ser salientado que os neurónios em espelho do observador não só reproduzem um acto motor, se for o caso, mas também codificam a intenção do acto, de forma que a programação neuronal no cérebro do observador cumpre-se até ao final mesmo que os últimos movimentos do acto se produzam fora do campo de visão.

O conhecimento do papel dos neurónios espelho na comunicação humana permite-nos entender muitas coisas que até alguns anos permaneciam no terreno da especulação. Entre elas estava a antiga intuição de Freud (1912) sobre a comunicação entre o inconsciente do paciente e o inconsciente do analista, o qual chegou a ser pensado como sendo telepatia.

Pelo que foi referido, sabemos que experimentar uma emoção ou observar a expressão da mesma emoção experimentada por outros excita, graças ao sistema em espelho do cérebro, os mesmos circuitos neuronais e, portanto, o observador está a viver no seu interior a mesma emoção, ainda que de maneira inconsciente. É isto que nos permite falar em empatia.

Portanto, em psicoterapia o conteúdo da comunicação do paciente e a matiz emocional transmitida através da sua voz, suas expressões faciais e gestos, estimulam imediatamente no analista/terapeuta – por simulação incorporada – os circuitos neuronais correspondentes e viverá, ainda que seja a um nível menor de intensidade subliminar ou inconsciente, as mesmas emoções que o paciente. Como é evidente, as emoções do analista que de alguma forma se transmitem através das suas respostas, tom de voz, prosódia, silêncios, atitudes e expressões faciais quando se trabalha face a face, provocam também no paciente uma simulação incorporada, de forma que se produz um ininterrupto feedback emocional entre um e outro.

Tudo isto tem, naturalmente um efeito terapêutico. Graças à simulação incorporada o analista experimenta uma emoção similar à que lhe é transmitida, mas à sua maneira, já que nem o seu cérebro nem o conjunto das suas experiências e aprendizagens são idênticas às do paciente. Portanto, em virtude deste feedback, o paciente receberá do analista uma simulação incorporada que será uma versão modificada da sua própria experiência, a qual terá um efeito regulador do seu estado emocional. A repetição contínua deste efeito regulador durante o processo terapêutico dá lugar a modificações significativas.

Adaptado de Joan Coderch
“La prática de la psicoterapia relacional”

psicólogo clínico psicoterapeuta

Terapia encenada

Maria tem 32 anos e uma filha de 7. Maria está constantemente a sufocar a filha com as suas preocupações injustificadas, da mesma forma que a mãe a sufocava a ela. Reconhece isso, mas sente que não consegue mudar.

Força-se a ser diferente, acabando muitas vezes por ser um híbrido materno sem consistência afectiva. Procura a terapia com a esperança de se tornar uma mãe melhor do que a sua, e com isso poder desfrutar (em vez de contaminar) da relação com a filha.

Juntos, Maria e eu exploramos a sua identificação com a mãe e a incapacidade de separar-se dela. Através de novas identificações (não tóxicas) é possível avançar lentamente.

A distância não é corte, é continuidade (de existir).

Com o decorrer da psicoterapia sente menos necessidade das minhas intervenções. Começa a poder fazer escolhas e a reconhecer as opções como sendo suas. Essa liberdade crescente permite-lhe iniciar pequenos percursos (dentro e fora da terapia), com esforço, mas com igual prazer.

O desenvolvimento da capacidade de compreender e aceitar os relacionamentos nas suas múltiplas dinâmicas levam-na a usufruir da ligação com outros e em particular com a filha.

Apanhada na rede da transmissão intergeracional, onde de pais para filhos se perpetua certo tipo de funcionamento mental, parece agora, mais perto, de pôr fim a esse ciclo.

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Psicoterapia vs. Fast-Therapy

Psicoterapia versus Fast-Therapy

Como terapeuta sou procurado por pessoas que têm um problema concreto para resolver, outras que se encontram num sofrimento agudo, mas também sou contactado por muitas que não estão satisfeitas com a forma como a vida corre.

São pessoas que tendo condições para ter uma vida melhor, não conseguem usufruir das relações afectivas, do estatuto profissional conquistado ou da situação financeira desafogada. Neste caso procuram na psicoterapia ajuda para compreender o seu mal-estar, o que está “errado” com elas.

Também há quem procure na terapia uma forma rápida de livrar-se do mal-estar. Na versão fast-therapy, não há muito espaço para questionar nem para compreender. Desejam libertar-se com a maior rapidez e de preferência, sem reflexão, daquilo que as faz sofrer.

Bastam cinco minutos para enumerarmos várias contrariedades, receios e angústias que ultrapassámos. Coisas que precisaram de tempo. Coisas que fazem da vida, aquilo que ela é, e, de nós, aquilo que somos.

O meu pai guardava com algum zelo uma bola de futebol que trazia da sua adolescência, até que um dia, muito menos zeloso, entre chutos e cabeçadas, cheguei a casa sem ela. Não me disse grande coisa, mas a tristeza nos olhos dele perdurou em mim uma eternidade. A culpa desmesurada que sentia ultrapassava a dimensão do que uma criança deve sentir numa situação daquelas. Provavelmente, a culpa não vinha só da perda da bola, mas era a parte mais visível.

Se pensarmos porque nos sentimos culpados mais facilmente ultrapassamos os sentimentos de culpa. Quando deixamos de nos interrogar estamos a paralisar o processo contínuo de crescimento, e a perder a oportunidade de retocar aspectos da nossa personalidade.

Aquela bola não volta mais, mas poder olhar para o meu pai sem me sentir culpado, poder jogar com ele com outra bola, – que não substitui a antiga, mas que está investida do mesmo afecto -, permite que o “jogo” possa continuar. Após um trambolhão, levantarmo-nos e voltar-mos ao jogo, é tudo o precisamos.

 

psicoterapia

A escolha de um terapeuta no Google

As ondas provocadas pelo artigo publicado no New York Times – What brand is your therapist?, onde Lori Gottlieb dá conta das dificuldades no exercício da sua profissão de terapeuta, têm-se feito sentir na comunicação social e noutros espaços ligados aos “psis”.

Após a sua formação Lori tinha a expectativa de poder estabelecer-se, iniciar a sua prática clínica e colher os frutos do investimento pessoal e financeiro: satisfação no trabalho e remuneração justa. Não foi preciso muito tempo para que as suas expectativas fossem goradas pela falta de pacientes que, concluiu, se alargava até aos terapeutas mais antigos e experientes. Isso, devia-se em parte, às seguradoras que tinham deixado de reembolsar os gastos com as terapias.

Uma nova realidade esperava por Lori; Branding consultants for therapists. Vários colegas seus tinham recorrido ao auxílio de branding consultants para através de estratégias de marketing conseguirem distinguir-se dos concorrentes, tornando-se visíveis ao grande público.

No meio de um conflito entre questões técnicas e éticas acabou por procurar um destes profissionais. Segundo ele, as pessoas já não estavam interessadas nas terapias convencionais, desejavam soluções rápidas e fáceis para os seus problemas e, estavam susceptíveis a propostas mais atraentes. Os terapeutas generalistas – old-school – estavam ultrapassados e o que atraía as pessoas eram especialistas, por exemplo, em cyberbullying e sexting.

Para além disso, para evitar ser considerado frio e distante, era sugerido que o terapeuta, juntamente com o anúncio da actividade profissional, expusesse a sua vida pessoal na redes sociais, principalmente os seus problemas, para que os pacientes se identificassem com eles e assim criassem uma proximidade.

O artigo de Lori é extenso e merece uma leitura atenta porque foca aspectos até aqui pouco abordados e com enormes implicações. Acredito que a escolha de um terapeuta no Google passe pela capacidade de sedução da mensagem, seja através da falsa intimidade ou pelo milagre prometido, e, quiçá, uma atraente foto da terapeuta numa praia das caraíbas, mas temo que o processo nasça inquinado.

Se o terapeuta estiver mais interessado nos seus proveitos financeiros do que no paciente, então, aconselho uma profissão mais leve e rentável. Isto não implica que se ignore o drama que se está a colocar aos terapeutas, que tanto investiram na sua formação para estarem aptos ajudar e se vêem numa situação desesperante. No entanto, há limites, não vale tudo.

Os terapeutas, para além de serem pessoas como as outras e terem que pagar as suas contas, têm também a responsabilidade de impedir, no mínimo, não contribuir, para que as psicoterapias passem a ser vistas como fórmulas/produtos de consumo, propiciadores de bem-estar imediato e constante, negando a realidade numa atitude delirante.

Desde os tempos idos do início das psicoterapias, mérito seja dado a Freud, até hoje, várias mudanças se verificaram. Actualmente, sabe-se que o poder “curativo” está na relação – autêntica – com o outro. Os estudos com bebés mostram que desde o nascimento, aquele pequeno “Ser” procura o outro – a relação –. É a partir do outro que verdadeiramente se nasce e se faz o homem.

Mascarada de múltiplas formas, lá está, a patologia dos nosso dias – o vazio -. A ilusão do preenchimento para esconder a incompletude fornecida por qualquer gadget é efémera, dura até sair o modelo seguinte.

As responsabilidades não devem ser atribuídas exclusivamente à publicidade que vende prazer imediato e a fantasia de que tudo é possível com um cartão de crédito, elas são também de todos nós que fomos sendo alegremente corrompidos pelo desenfreado consumismo como forma de alienação.

Se tiver que ficar para trás por não acompanhar os novos tempos, ficarei. Ficarei com as minhas convicções, com aquilo que acredito e do lado certo da história.

(Post publicado originalmente em 2012)

A ansiedade, a bioquímica e a interpretação da experiência. Pedro Martins Psicoterapeuta

A ansiedade, a bioquímica e a interpretação da experiência

Recentemente estive a conversar com um jovem sobre a sua ansiedade, que era sentida por ele como muito intensa.

Quando lhe perguntei acerca do que seria a sua ansiedade ele disse que não sabia.

Quando lhe sugeri que podíamos tentar explorar sobre o que se tratava a ansiedade ele disse que era tão intensa que devia ser bioquímica.

Isso significava que para ele a ansiedade não podia ser entendida como sendo psicológica, mas tinha que ser tratada como parte da sua “doença”.

Eu reconheci que a ansiedade envolve bioquímica, mas mostrei-lhe que também existem experiências e interpretações das experiências que despoletam reacções químicas.

Por exemplo, se alguém aponta uma arma na nossa direcção, provavelmente vamos sentir um intenso processo bioquímico dentro de nós mas a experiência não seria “apenas bioquímica”.

Se as pessoas procuram compreender (se) e trabalhar os seus problemas emocionais é essencial que tenham curiosidade sobre as suas experiências/vivências e possam reflectir sobre o que as pode ter desencadeado.

Se alguém aponta uma arma na nossa direcção, provavelmente vamos sentir um intenso processo bioquímico dentro de nós mas a experiência não será “apenas bioquímica”.

Por vezes essa curiosidade ou reflexão trás importantes informações sobre essas experiências.

E pode, por vezes, permitir a identificação do que fez despontar a ansiedade e dessa forma possibilitar a sua resolução.

Claro que situações de ansiedade e de depressão, normalmente têm origem em experiências muito mais complexas, e implica uma maior reflexão.

Vivemos numa sociedade que não gosta da complexidade e da reflexão profunda.

Desta forma temos um viés na direcção de pensar que as emoções perturbadoras não fazem sentido e rapidamente concluir que se trata apenas de uma questão química.

Este viés faz-nos pensar que não devemos vivenciar estados emocionais perturbadores, por isso temos tendência a afastá-los ou a dissociá-los o que torna mais difícil entendermos as causas e decidir o que fazer com eles.

Aqueles que comercializam drogas psiquiátricas aproveitam este viés cultural para oferecer uma pseudo-explicação sedutora, de que os estados emocionais indesejáveis ​​e que não são facilmente resolvidos devem ser o resultado de um “desequilíbrio bioquímico” ou algum outro problema biológico.

A nossa cultura tornou-se fortemente influenciada por esta forma de ver as coisas, ao ponto da maioria acreditar que os problemas emocionais graves para os quais não há uma explicação fácil devem ser causados por uma falha bioquímica, em vez de ser algo que pode ser potencialmente compreendido e resolvido.

O triste resultado deste esforço de marketing tem sido o drástico agravar da tendência cultural para evitar ouvirmo-nos uns aos outros e a nós mesmos.

Qualquer problema mental ou emocional que não pode ser resolvido rapidamente é “bioquímico” e não vale a pena sequer tentar entender, pelo contrário, devemos partir logo para as drogas.

Assistimos  ao drástico agravar da tendência cultural para evitar ouvirmo-nos uns aos outros e a nós mesmos.

Quando as pessoas estão traumatizadas ou quando experimentam conflitos que excedem a sua capacidade de lidar com eles dá-se uma dissociação.

Quando a dissociação é o problema, há uma necessidade de trabalhar no sentido de uma maior compreensão e integração.

No entanto, o efeito da crença no desequilíbrio bioquímico vai aumentar a dissociação.

Ao invés de se questionar acerca das origens da ansiedade ou da depressão, por exemplo, a pessoa convencida de que é um desequilíbrio bioquímico procura apenas livrar-se dela sem tentar compreender a sua origem interna.

Quando as pessoas estão convencidas que os seus problemas são bioquímicos têm menos propensão em explorar o problema com outras pessoas ou com um terapeuta.

O resultado final desta desinformação provocada pelo marketing pode ser extremamente iatrogénica, e ser uma das causas primárias, juntamente com os efeitos secundários a longo prazo das drogas, do agravamento da saúde mental.

Traduzido/adaptadoa partir de “It’s not just drugs; Misinformation used to push drugs can also make mental problems worse” – Ron Unger

Psicoterapia

O Sintoma em Psicoterapia

Em psicoterapia o sintoma tem um estatuto diferente daquele que vulgarmente lhe é atribuído.

O que é um sintoma?

Se um paciente se queixa de depressão, falta de desejo sexual ou de incapacidade de pôr termo a uma relação onde é vítima de um parceiro violento, qual é o sintoma?

O sintoma não é necessariamente aquilo de que se tem consciência.

Talvez seja mais apropriado chamar-lhe queixa, que não deve ser confundida com sintoma.

Segundo Mezan, “a queixa” traduz uma percepção que o indivíduo tem sobre si mesmo, uma “teoria” a seu respeito que, como qualquer produção psíquica, deve ser tratada com respeito.”

No entanto, nada indica que essa “teoria” esteja de acordo com os “reais” significados.

Por outro lado, o sintoma, por norma, apresenta-se como absurdo; o paciente não consegue perceber a sua razão de ser nem de onde ele provém.Se soubesse, provavelmente, não recorreria a um psicólogo.

O sintoma é sentido como absurdo porque encontra-se desconectado da restante vida mental.

Perante a impossibilidade de estabelecer essa conexão o sujeito desenvolve uma teoria para dar sentido ao seu sintoma.

Factos improváveis, mas plausíveis, são usadas para explicar/justificar o sintoma.

Portanto, numa psicoterapia, perante o sintoma, não deve ter-se a mesma atitude que a medicina.

O médico procura aliviar ou remover o sintoma que perturba a saúde do paciente. Neste caso o paciente não é “sujeito do seu mal”, mas “vítima”.

Do psicólogo espera-se que estabeleça as condições para que o paciente, ao seu ritmo, possa criar novas conexões que lhe permitam uma compreensão mais profunda da situação e de si, e ao mesmo tempo, o extinguir dos sintomas.

Pensamento mágico. Pedro Martins Psicólogo clínico Psicoterapeuta

Pensamento Mágico

O termo pensamento mágico designa o pensamento que se apoia numa fantasia de omnipotência para criar uma realidade psíquica …

Identificação Projectiva. Pedro Martins - Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Identificação Projectiva

Em situações desconfortáveis com outra pessoa, por vezes é difícil saber de onde vem o desconforto, de nós ou do outro. …

Adoecer Mentalmente. Pedro Martins Psicólogo Clínico Psicoterapeuta

Adoecer Mentalmente

Adoecer Mentalmente: Durante bastante tempo podemos conseguir lidar suficientemente bem com as coisas. Conseguimos ir trabalhar …