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depressão infantil

Depressão Infantil. Direito à Tristeza e à Alegria

Depressão Infantil. Direito à tristeza e à Alegria

A organização psíquica do homem faz-se a partir de dois fenómenos de base: a angústia e a depressão. São estas duas situações que, por assim dizer, nos ensinam a viver. Um indivíduo, que no curso da sua evolução não se angustiasse, não organizava convenientemente as suas defesas. Um indivíduo que não se deprimisse tornar-se-ia rigidamente sempre igual.

A alegria e a tristeza aprendem-se na relação com a mãe, mas quando os ritmos e os equilíbrios entre as duas formas de estar não são favoráveis a uma resolução mental, a criança aprende a esconder a tristeza com a falsa alegria da instabilidade, com comportamentos provocatórios ou doenças várias.

Se a aprendizagem da relação afectiva com a mãe, e a resolução mental da depressão se não fazem adequadamente antes da escola, a criança não pode aceitar o que lá se ensina, porque apenas vê nela uma tralha informe de instrumentos que a torturam e que não servem as suas necessidades afectivas. Ela quer ser amada e encontrar quietação num ambiente tranquilizador, e fornecem-lhe matérias desafectadas, como as letras e os algarismos, as canetas e os papéis.

A criança é espontaneamente alegre quando é aceite e compreendida nas suas reacções afectivas e, entre estas, a sua tristeza.

O bloqueio afectivo e intelectual pode ser uma forma de tentar dominar a depressão.

A alegria é a descoberta do Eu e da autonomia do pensar. A tristeza é o que pode, em termos psicológicos, conduzir à depressão normal, que possibilita as mudanças evolutivas de estrutura psíquica, ou à depressão patológica, que se descarrega sobre os outros, sobre a forma de comportamento, ou sobre os órgãos, sobre a forma de doença psicossomática. O bloqueio afectivo e intelectual pode ser uma forma de tentar dominar a depressão.

Da tristeza e da paixão tem a criança de aprender o que dela fazer. Sem que ninguém lhe ensine… porque estar triste é olhar para dentro e reflectir sobre o próprio Ser. Os estados de tristeza e de paixão são, na vida da criança e do Homem, momentos de reflexão e, portanto, de criatividade.

Estar apaixonado é olhar para fora, para um ser que nos permite criarmo-nos a nós próprios como Seres humanos.

Nada de criativo existe no homem sem o Eu e o Outro…, mas a criança do Homem está a ser devorada na sua espiritualidade. Há que proclamar o direito da criança a agitar-se, manifestar sinais e sintomas de sofrimento psíquico, físico e moral, sem ser submetida a tratamentos medicamentosos ou a medidas repressivas. A cultura não se ensina, aprende-se no convívio dos homens, na livre descoberta que cada um possa fazer do amor dos outros.

Um sintoma de fundo que se observa em grande número destes sintomas reactivos é o da depressão infantil, que nem sempre se revela por inibições, como a gaguez; por compensações, como o furto; por conversão histérica, como a enurese; ou por angústia, como os terrores nocturnos. Às vezes, revela-se por tristeza manifesta, turbulência e por muitos actos, geralmente designados nos manuais por perturbações da conduta.

Todos os sintomas da idade escolar, mesmo que tenham conotações com perturbações somáticas, têm que ver com formas reactivas da criança lutar contra a depressão e a ansiedade. Como dissemos anteriormente, no fundo dos problemas das crianças em idade escolar há sempre a ansiedade e a depressão, uma e outra, às vezes inaparentes no exame superficial.

Tem uns escassos decénios a descoberta que há depressões infantis, e os educadores, ainda hoje, reagem a essa ideia, na convicção de que as crianças não têm o direito de estar deprimidas porque eles, adultos, fazem tudo por elas.

 

João dos Santos

Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos

Maria Eugénia Carvalho e Branco

como construímos a nossa identidade

Como construímos a nossa Identidade

A construção da Identidade passa por um processo de identificação.

O termo identificação em psicologia presta-se a uma certa dificuldade porque é utilizado em dois sentidos:

1 – Identificação como operação mental de reconhecimento, como actividade gnóstica; identificar um objecto ou uma pessoa consiste em caracterizá-lo e reconhecê-lo, sendo portanto uma acção intelectual de abstracção e generalização e de comparação, uma operação lógico-dedutiva que enriquece a experiência sensório-motora e a actividade da senso-percepção.

2 – Identificação como movimento construtivo da personalidade, consistindo numa transformação do próprio por apropriação de características do outro.

A identificação – construção da identidade – nem sempre se faz pela interiorização de qualidades e atributos do outro, designada de identificação positiva. A identificação também se processa no sentido oposto: modificação do próprio pela criação de características opostas às do modelo; é a chamada identificação negativa (neste caso é mais um objecto de contraste do que de identificação).

Na identificação positiva está em causa uma relação amorosa com o objecto de identificação; na identificação negativa, uma relação de agressividade (“gosto tanto dele que quero ser como ele” , odeio-o tanto que quero ser bem diferente”).

Por isso a identidade positiva é estável e tranquilizadora, e a identidade negativa, instável e inquietante. A identidade negativa é um importante factor na génese do comportamento dissocial, mas também – em certa medida – da diferenciação individual.

Não se nasce com uma identidade psíquica; ela é uma construção pessoal.

Não se nasce com uma identidade psíquica; construímos a nossa identidade subjectiva. A identidade é, pois, uma construção pessoal. Até porque a percepção de que nós temos (quem somos e para onde tendemos), que temos do outro e que o outro tem de nós, é indicada pela introjecção do que necessitamos e pela projecção daquilo que desejamos; pois na compreensão das pessoas e de nós próprios a descriminação e avaliação cognitivas têm como suporte prínceps a qualificação emocional.

Parte-se, é certo, da identidade biológica, objectiva e de um programa genético para o seu desenvolvimento. Mas – sublinho – de um programa aberto: que permite um leque relativamente amplo de evoluções possíveis, mesmo da própria constituição biológica; muito mais, da organização mental.

O meio, sobretudo o ambiente afectivo-humano e socio-cultural, modela-nos e, até certo ponto, pode transformar-nos. As relações pessoais (interpessoais) significativas – na sua essência, relações intersubjectivas -, são a base e o veículo da construção identificativa que nos forma e, a todo o tempo, transforma. Somos, pelo menos em certa medida, uma criação do sistema relacional em que vivemos e convivemos – vale dizer, da relação afectiva em que fomos envolvidos e nos envolvemos: seja, uma criatura do outro e para o outro.

Porém, e sobremaneira, somos também – e desde o início – criadores activos (passe a redundância), espontâneos e livres do nosso ser psíquico, da identidade peculiar que nos vai definindo e diferenciando. Ser intencional por excelência, o homem constrói-se – mais que é construído. Para além de sermos – é preciso dizê-lo -, nós próprios, os construtores do mundo – e únicos obreiros, com os outros (em colaboração, abraço humano), do universo civilizacional e político que psicologicamente habitamos.

É esta posição eminentemente intencional e transformadora – de mim e do outro, meu parceiro de relação – e que nos distingue dos bichos.

E é no vínculo com o semelhante, na relação de apego e intimidade – relação biunívoca de amor e de descoberta – que me conheço e reconheço: sei quem sou e o que valho.

fobia escolar

Fobia Escolar

A fobia escolar é um quadro ansioso que surge já depois de vencido o medo normal da entrada para a escola, e quando a criança se encontra aparentemente adaptada.

Em nosso entender a “fobia escolar” é uma situação equivalente à da neurose de angústia e, portanto, um quadro dominado pela angústia e pela perspectiva ansiosa.

A “fobia de escola” é um medo sem objecto, duma criança já adaptada ao ambiente escolar.

Um motivo aparente atribuído pela criança e pelos pais a uma causa que parece fútil impede-a de frequentar a escola, devido às situações de pânico e de angústia que se desencadeiam, quando tem que se separar da mãe para se deslocar para o local dos seus estudos. Como em todas as situações de fobia, há uma forte participação da mãe e do resto da família da criança atingida (…).

Os motivos fúteis a que acima me refiro dizem respeito a acidentes vários a que a criança assistiu, histórias que ouviu, ameaças de companheiros ou de professores, etc.

Para alguém que tenha competência e experiência para fazer avaliação dos sintomas duma criança com “fobia escolar”, é evidente que os motivos apresentados, mesmo que logicamente plausíveis, não podem justificar uma angústia com as dimensões, como a que efectivamente se verifica.

Trata-se de uma crise relacionada com a evolução psicossexual em que a criança procura transformar as suas fantasias infantis, relacionadas com a “cena primitiva”, em algo cujo valor simbólico seja suportável. Não estando a criança preparada, através dos seus mecanismos de defesa, para sonhar, vivenciar ou compensar o seu erotismo genital, dá-se a eclosão da crise de angústia que exige uma intervenção terapêutica (…).

É situação rara que surge em crianças intelectualmente muito avançadas de meio sociocultural elevado.

 

“Vida, pensamento e obra de João dos Santos”

Maria Eugénia Carvalho e Branco

pais filhos

Porque os bons pais têm filhos mal comportados

Pais / Filhos

Imagine dois tipos muito diferentes de famílias, cada uma na sua própria mesa de jantar numa noite habitual.

Na Família 1: As crianças são muito bem comportadas: dizem que a comida é muito boa, falam sobre o que aconteceu na escola, ouvem os pais com atenção e no fim terminam os trabalhos de casa.

Na Família 2: É bastante diferente. Chamam nomes à mãe, resmungam e gozam quando o pai diz algo; fazem um comentário ligeiramente indecente que revela uma falta de vergonha sobre os seus corpos; Se os pais perguntam se já fizeram os trabalhos de casa, dizem que a escola é uma porcaria viram costas e batem a porta.

Parece que tudo vai muito bem na Família 1 e muito mal na Família 2. Mas se olharmos para dentro da mente da criança, podemos ter uma imagem muito diferente.

Na Família 1, os chamados bons filhos têm dentro de si toda uma série de emoções que retêm longe da vista, não porque queiram, mas porque sentem que não podem ser tolerados como realmente são. Sentem que não podem deixar os seus pais ver que estão com raiva ou entediados, porque parece que os pais não têm recursos internos para lidar com a realidade deles; Devem reprimir as suas partes mais corporais, mais rudes e mais voláteis. Qualquer crítica a um adulto é (imaginam) tão devastadora que não pode ser proferida.

Na Família 2, os chamados filhos mal comportados sabe que as coisas são sólidas. Eles sentem que podem dizer que a mãe é uma idiota, porque nos seus corações sabem que ela os ama e que eles a amam e que um ataque de raiva não destruirá isso. Eles sabem que o pai não se desintegrará ou se vingará por ser gozado. O ambiente é quente e forte o suficiente para absorver a agressão, a raiva, a troça ou o desapontamento da criança.

No final, temos um resultado inesperado: o bom filho está com problemas na vida adulta, tipicamente relacionados com concordância excessiva, rigidez, falta de criatividade e uma consciência insuportavelmente pesada que pode levar a pensamentos suicidas. E a criança impertinente caminha saudavelmente para a maturidade, onde se encontra a espontaneidade, a resiliência, a tolerância ao fracasso e o sentimento de auto-aceitação.

O que chamamos de maldade é na verdade uma exploração inicial da autenticidade e da independência. Tendo sido crianças impertinentes, podemos ser mais criativos porque podemos experimentar ideias que não necessitam imediatamente de aprovação; podemos cometer um erro, meter-nos numa embrulhada ou parecer ridículos e não será um desastre. As coisas podem ser reparadas ou aperfeiçoadas. A nossa sexualidade é aceitável para nós e, portanto, não precisamos sentir-nos excessivamente embaraçados ao apresentá-la a um parceiro. Podemos ouvir críticas a nós mesmos e conseguir lidar com o que é verdade e rejeitar o que é maldade.

Devemos aprender a ver crianças malcriadas, algumas cenas caóticas e levantar de voz ocasionais como pertencentes à sanidade, em vez da delinquência – e, ao mesmo tempo, a temer pessoas que não causam qualquer problema.

E, se tivermos momentos ocasionais de felicidade e bem-estar, devemos sentir-nos especialmente agradecidos pelo facto de ter havido, certamente alguém, num passado distante, que optou por olhar com os olhos do amor para algum comportamento profundamente desproporcionado e desagradável da nossa parte.

 

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

A partir de Why good parents have naughty children – Alain de Botton

A crítica Pedro Martins Psicoterapeuta

A Crítica – entre o desagradável e o insuportável

A crítica nunca é fácil.

Lidar com o facto de os outros nos considerarem ridículos, feios, desagradáveis ou incompetentes é um dos aspectos mais desafiadores de qualquer vida.

No entanto, o impacto da crítica é extremamente variável – e depende, em última análise, de um detalhe um pouco inesperado: o tipo de infância que tivemos.

O facto de a crítica ser experimentada como meramente desagradável ou completamente catastrófica depende do que aconteceu connosco há muitos anos com os nossos cuidadores.

O que se entende por uma “infância má” é aqui, simplesmente, uma questão de amor.

Uma criança chega ao mundo com uma capacidade muito limitada para lidar consigo própria.

É a tolerância, o entusiasmo e o perdão do outro que gradualmente nos acomoda à existência.

A forma dos nossos cuidadores nos olharem torna-se na forma como nos vemos.

É por sermos amados pelos outros que adquirimos o dom de olhar com simpatia para nós próprios.

Simplesmente, não está na nossa incumbência acreditar em nós mesmos por conta própria.

Estamos totalmente dependentes de um sentimento interior de termos sido valorizados de forma indirecta por outra pessoa, como uma protecção contra a subsequente negligência do mundo.

Nós não precisamos ser amados por muitos.

Nós não precisamos ser amados por muitos, um bastará, e doze anos podem ser suficientes (idealmente dezasseis).

No entanto, sem esse amor, a contínua admiração de milhões nunca será capaz de nos convencer de que somos bons.

Mas com esse amor, o desdém de milhões é indiferente.

As infâncias más têm a triste tendência:

— De nos levar a procurar situações em que existe uma possibilidade teórica de recebermos uma aprovação excepcional (o que também significa, um alto risco de encontrar uma enorme desaprovação) e por isso fazemos esforços desmesurados na tentativa de sermos famosos e visivelmente bem-sucedidos.

Mas é claro que o mundo em geral nunca dará emocionalmente a confirmação incondicional desejada.

Existirão sempre os discordantes, críticos e pessoas igualmente afectadas pelo seu próprio passado para poderem ser gentis com os outros.

E é para essas vozes que aqueles que tiveram infâncias complicadas se vão direccionar, por mais entusiástica que a multidão possa ser.

Ao longo do caminho podemos constatar que o principal indicador de ser um bom pai é quando um filho, simplesmente, não tem interesse em ser admirado por um grande número de desconhecidos.

Nós não ouvimos todos a mesma coisa quando somos criticados.

Alguns de nós, os sortudos, ouvimos apenas a mensagem superficial do aqui e agora: que nosso trabalho ficou abaixo das expectativas, que devemos esforçar-nos mais nas nossas funções, que o nosso livro, filme ou música não é brilhante. Isso é suportável.

Mas os mais feridos entre nós ouvem muito mais.

A crítica leva-os directamente para a ferida primitiva.

Um ataque no presente entrelaça-se com os ataques do passado e cresce desmesuradamente e de forma incontrolável na sua intensidade. O chefe ou colega pouco amável torna-se o pai que nos decepcionou.

Tudo é questionado. Não só achamos que fizemos um mau trabalho, como somos uma miséria, pois foi assim que nos sentimos naquela época, na nossa mente infantil, frágil e indefesa.

Saber mais sobre a nossa infância proporciona-nos uma via fundamental de defesa contra os efeitos da crítica.

Isso significa que podemos estar atentos, quando nos sentimos atacados e despoletamos a desnecessária auto-depreciação.

Podemos aprender a separar o veredicto de hoje do veredicto emocional que trazemos connosco e que constantemente procuramos confirmar através de eventos do dia-a-dia.

Podemos aprender que, por mais tristes que sejam os ataques que enfrentamos, eles não são nada comparados com a verdadeira tragédia e causa efectiva da nossa tristeza: que as coisas não correram bem naquela época.

Saber mais sobre a nossa infância proporciona-nos uma via fundamental de defesa contra os efeitos da crítica.

E assim podemos dirigir a nossa atenção para onde é realmente precisa; longe das críticas actuais e apontada para aquele pai da nossa infância, pouco convencido do nosso valor.

Podemos perdoar-nos por sermos, neste caso, inocentes, fatalmente sensíveis e, em essência, mentalmente afectados.

Não podemos parar os ataques do mundo, mas podemos – através da exploração das nossas histórias – mudar o que significam para nós.

Também podemos e devemos dar uma segunda oportunidade: voltar atrás e corrigir o veredicto original do mundo.

Podemos tomar medidas para nos expormos ao olhar de amigos ou, idealmente, de um bom terapeuta que possa ser um espelho mais benigno e ensinar-nos o que deveriam ter-nos ensinado desde o início:

Como todos os humanos, quaisquer que sejam as nossas falhas, merecemos estar aqui. Este é o nosso lugar.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de “Criticism when you’ve had a bad childhood” – Alain de Botton

verdadeiro e falso self

O Verdadeiro e o Falso Self

O Verdadeiro e o Falso Self

Uma das explicações mais surpreendentes e impactantes, sobre o porquê de nós como adultos, podermos ter problemas psicológicos, está ligada ao facto de nos nossos primeiros anos nos ter sido negada a possibilidade de sermos plenamente nós mesmos.

Ou seja, não foi permitido sermos obstinados e difíceis; não pudemos ser suficientemente exigentes, agressivos, intolerantes e egoístas como precisávamos ser.

Como os nossos cuidadores estavam demasiado preocupados ou afectados com algo, foi naturalmente necessário ajustarmo-nos a eles, sentindo que era preciso agir de acordo para sermos aceites e amados.

Um desenvolvimento saudável requer que possamos experimentar o incomensurável luxo de um período em que não precisamos de nos preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam de nós.

Fomos “obrigados” a ser Falso Self antes de termos tido a possibilidade de nos sentirmos verdadeiramente vivos – Self Verdadeiro.

E, como resultado, muitos anos depois, sem entendermos muito bem como, corremos o risco de nos sentirmos pouco consistentes, frágeis internamente, e, de alguma forma, relativamente ausentes.

A teoria do Verdadeiro e Falso Self resulta do trabalho de um dos maiores pensadores do século XX, o pedopsiquiatra e psicanalista inglês Donald Winnicott.

Numa série de trabalhos dos anos sessenta e com base em observações cuidadas dos seus pacientes (adultos e crianças), Winnicott desenvolveu a tese de que um desenvolvimento saudável requer que, invariavelmente, possamos experimentar o incomensurável luxo de um período em que não precisamos de nos preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam de nós.

Podemos ser inteiramente e, sem qualquer sentimento de culpa, o nosso Verdadeiro Self, porque aqueles que nos rodeiam – durante um período – adaptam-se inteiramente às nossas necessidades e desejos, por mais inconvenientes e difíceis que estes possam ser.

O verdadeiro Eu do bebé, na formulação de Winnicott, é, por natureza, associal e amoral. Não está muito interessado nos sentimentos dos outros.

O bebé grita quando precisa – mesmo a meio da noite ou num comboio cheio de passageiros.

Pode ser agressivo, mordendo e – aos olhos de um apreciador simpatizante das boas maneiras ou apreciador da higiene – chocante e um pouco nojento. Expressa-se onde e como quer.

Pode ser doce, é claro, mas nos seus próprios termos, e não para atrair ou regatear o amor.

Se uma pessoa tem sensação de se sentir autêntico como adulto, então deve ter desfrutado o imenso privilégio emocional de ter sido verdadeiro à sua maneira: exigir das pessoas a seu belo prazer, pontapear quando está com raiva, gritar quando está cansada, morder quando se sente irritada.

O verdadeiro Eu da criança deve ter a possibilidade de fantasiar destruir os pais quando está em fúria – e depois testemunhar que o pai sobreviveu; o que garante à criança um sentido vital e imensamente reconfortante de que não é de facto omnipotente, e que o mundo não colapsa perante os seus desejos destrutivos.

Quando as coisas correm bem, de forma gradual e voluntária, a criança desenvolve um Falso Selfcapacidade de se comportar de acordo com as exigências da realidade externa.

Isto é o que permite que uma criança se submeta às regras da escola, se torne adulto e tenha uma vida profissional.

Quando nos foi dada a possibilidade de ser Verdadeiro Self, não precisamos de nos insurgir e manifestar as nossas necessidades constantemente.

Podemos seguir as regras porque, durante algum tempo, conseguimos ignorá-las inteiramente.

Infelizmente, muitos de nós não tivemos o começo ideal.

Talvez a nossa mãe estivesse deprimida e o pai frequentemente irritado, talvez houvesse um irmão mais velho ou mais novo a viver uma crise e exigisse toda a atenção.

O resultado foi termos aprendido a cumprir cedo demais, e assim, tornado obedientes às custas da nossa autenticidade.

Nos relacionamentos podemos ser polidos e norteados para as necessidades dos nossos parceiros, mas não somos capazes de amar adequadamente.

No trabalho, podemos ser cumpridores, mas pouco criativos e originais.

Nestas circunstâncias, e esta é a sua genialidade, a psicoterapia oferece-nos uma segunda oportunidade.

Nas mãos de um bom terapeuta é-nos permitido a regredir até ao momento em que começámos a ser Falso Self.

Na sala do psicoterapeuta, contidos em segurança pela sua circunspeção, podemos aprender – mais uma vez – a sermos autênticos.

Podemos ser excessivos, difíceis, despreocupados, egoístas, agressivos, chocantes e irascíveis.

O terapeuta irá aceitar-nos – e, assim, ajudar-nos a experimentar uma nova sensação de vitalidade, que deveria ter lá estado desde o princípio.

A exigência de ser Falso Self, nunca desaparece, mas torna-se mais suportável, porque regularmente nos permitem, na privacidade da sala do terapeuta, uma vez por semana ou mais, ser Verdadeiro Self.

Winnicott era extremamente calmo e generoso com os seus pacientes quando eles estavam a tentar reviver o seu Verdadeiro Self.

Um deles partiu o seu jarrão favorito, outro roubou-lhe dinheiro e um terceiro insultava-o sessão após a sessão.

Mas Winnicott era imperturbável, sabendo que isso fazia parte de uma jornada de regresso à saúde, longe da fadiga mortal que aflige esses pacientes.

Podemos agradecer a Winnicott por nos recordar que o prazer e o sentimento de autenticidade devem passar por estágios de egoísmo e por certo tipo de comportamentos. Simplesmente, não existe outra forma.

Nós temos que ser autênticos antes de podermos ser vantajosamente, um pouco “falsos” – e se nunca tivemos permissão, então a nossa ansiedade, a nossa depressão vão dar nota de que precisamos dar um passo atrás, e a terapia está lá para isso.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins

a partir de: “The True and the False Self” – Alain de Botton

Elogio – melhor que receber só mesmo merecer

Elogio – melhor que receber só mesmo merecer

Há coisas onde as crianças não diferem muito dos adultos: a satisfação de receber um elogio. Em ambos os casos o elogio pode não ser merecido, mas no que diz respeito aos filhos, os pais têm sempre um elogio “gratuito” para um poema horrível, para uma performance musical de arrepiar ou para um golo a 20 metros da baliza.

Confiança -, dizem. – É preciso que ganhem auto-confiança para triunfarem na vida. Será que o elogio incondicional gera confiança ou dependência?

As crianças e os jovens gostam de sonhar com conquistas mirabolantes e aplausos intermináveis. No entanto, fazem-no muito mais pelo prazer do devaneio do que pelo desejo real de concretização. Por seu lado, os pais, investem (por vezes na pior acepção da palavra) de corpo e alma nos sonhos dos filhos (ou seus) exponenciando os seus dotes de forma desmesurada.

Os pais estão convencidos que para os filhos triunfarem precisam confiar cegamente nas suas qualidades, esquecendo que sem esforço nada se consegue. Assim, mesmo sem se justificarem, os pais desfazem-se em aplausos.

O problema é que os elogios incondicionais em vez de produzirem auto-confiança provocam dependência: os filhos ficam dependentes da aprovação dos pais e, mais tarde, dos outros. Escravos desta situação, invertem as prioridades: em vez de se esforçarem na concretização dos seus desejos, buscam os elogios.

Hoje, os filhos são o centro da vida de muitos pais e, ainda que encontremos aí um enorme altruísmo, na verdade, está também um grande vazio, que os pais procuram preencher através dos filhos. Isto acaba por gerar uma  dependência desigual: os filhos tornam-se importantes para os pais e os pais indispensáveis para os filhos. Cada passo que o filho dá tem que ser antecedido de um sms de autorização/aprovação.

A visão actual sobre as crianças é muito diferente e, como normalmente acontece, para as compensar de todo o mal que lhes provocámos, passa-se para o outro extremo: endeusamento. Talvez as coisas não sejam assim tão simples e esse endeusamento tenha um preço elevado e, já lhes esteja a ser cobrado.

As crianças são o futuro, é incontestável. Não quererá isso também dizer que lhes colocamos a responsabilidade de compensarem as nossas falhas e fracassos? Não andaremos à procura de um orgulho retroactivo?

Why We’re All Messed Up By Our Childhoods

Por que somos todos marcados pela nossa infância?

Ninguém pretende que isso aconteça, é claro, mas em qualquer lugar da nossa infância, a nossa trajectória em direcção à maturidade emocional foi sendo constrangida.

Mesmo que cuidem de nós com sensibilidade e carinho, não escapamos aos primeiros anos das nossas vidas sem sofrer algum tipo de ferimento psicológico – ao qual podemos chamar “ferida primordial”.

As causas da nossa ferida primordial raramente são dramáticas, mas o seu efeito é importante e duradouro.

A infância abre-nos ao dano emocional, em parte porque, ao contrário de outros seres vivos, o Homo sapiens tem um desenvolvimento muito longo e estruturalmente claustrofóbico.

Um potro está em pé trinta minutos depois de nascer. Aos dezoito anos já passámos cerca de 25 mil horas na companhia dos nossos pais.

Mesmo a baleia azul, o maior animal do planeta, é sexualmente madura e independente aos cinco anos de idade.

Mas nós somos mais demorados.

Pode levar um ano até darmos os nossos primeiros passos e dois para verbalizarmos uma frase completa.

São precisas duas décadas para sermos classificados como adultos.

E, entretanto, estamos à mercê dessa instituição altamente particular a que chamamos lar, com supervisores bastante peculiares: os nossos pais.

Ao longo dos Verões e Invernos da nossa infância fomos intimamente moldados pela maneira de ser daqueles que nos rodeiam.

Conhecemos as suas expressões favoritas, os seus hábitos, como reagem quando estão atrasados e a maneira como se dirigem a nós quando estão irritados.

Nós memorizamos as texturas dos tapetes e os cheiros dos armários.

Na meia-idade ainda podemos recordar o sabor de um biscoito que gostávamos de comer depois da escola.

Durante a nossa longa gestação, num sentido físico, estamos completamente à mercê dos nossos cuidadores.

Somos tão frágeis que podemos ser derrubados por um galho. O gato da família é como um tigre.

Precisamos de ajuda para atravessar a estrada, vestir o casaco e escrever o nome.

Mas a nossa vulnerabilidade é essencialmente emocional.

Tal é a nossa fragilidade na infância, que qualquer coisa que nos tenha acontecido é suficiente para nos afectar interiormente de forma profunda.

Não podemos começar a entender as nossas estranhas circunstâncias:

– Quem somos, de onde vêm os nossos sentimentos, por que estamos tristes ou furiosos, como os nossos pais se encaixam num esquema mais amplo e porque se comportam de certa forma.

Nós, necessariamente, tomamos o que as pessoas grandes que nos rodeiam dizem como uma verdade inquestionável.

Estamos condenados a estar enredados nas suas atitudes, ambições, medos e inclinações.

Sendo crianças, não temos como evitar isso. Nós somos muito frágeis. Se um pai nos gritar, as fundações da terra tremem.

Não podemos dizer que algumas das palavras ásperas não foram inteiramente justificadas, ou tiveram origem num dia complicado no trabalho ou são repercussões da própria infância do adulto.

Simplesmente sentimos como se um gigante todo-poderoso tenha decidido, por boas razões (ainda que desconhecidas) que devemos ser passados a ferro.

Nem podemos entender, quando um pai vai embora no fim-de-semana, ou se desloca para outro país, que não nos deixaram porque fizemos algo errado ou porque não merecemos o seu amor, mas porque nem sempre os adultos controlam os seus próprios destinos.

Se os pais estão na cozinha a falar num tom mais alto, pode parecer que essas duas pessoas se odeiam.

A altercação que as crianças ouvem pode ser sentida como catastrófica, como se tudo o que é seguro se estivesse a desintegrar.

Não há evidências em nenhum outro lado da compreensão da criança de que as discussões são uma parte normal dos relacionamentos.

E que um casal pode estar totalmente comprometido na relação ao longo da vida e, ao mesmo tempo, expressar com força o desejo de que o outro possa ir para o inferno.

As crianças são igualmente impotentes diante das várias teorias dos pais.

Elas não conseguem entender a resistência dos pais a juntarem-se com outras famílias da escola, ou a forma particular de se vestirem, ou porque se preocupam tanto com as limpezas e com os atrasos e como elas representam uma compreensão muito parcial das prioridades.

As crianças não têm emprego. Elas não podem ir para outro lugar. Elas não têm uma rede social alargada. Mesmo no seu melhor, a infância é uma espécie de prisão aberta.

Como resultado das peculiaridades desses primeiros anos, adquirimos a nossa maneira de ser.

Uma das características dos desequilíbrios que decorrem de feridas na infância é que não revelam de forma clara as suas origens.

As coisas dentro de nós começam a crescer em direcções estranhas.

Sentimos que não podemos confiar facilmente, ou temos que manter a sala limpa, ou ficamos incomodados com pessoas que levantam a voz.

Não é preciso que alguém faça algo particularmente chocante, ilegal, sinistro ou perverso para fazermos grandes distorções.

As causas da nossa ferida primordial raramente são dramáticas, mas o seu efeito é importante e duradouro.

Tal é a nossa fragilidade na infância, que qualquer coisa que nos tenha acontecido é suficiente para nos afectar interiormente de forma profunda.

Conhecemos bem a questão através das tragédias. Nos trágicos contos dos antigos gregos, não são os enormes erros e deslizamentos que desencadeiam o drama: são os erros mais ínfimos e inocentes.

A partir de pontos de partida aparentemente menores, as consequências terríveis desenrolam-se.

As nossas vidas emocionais são igualmente trágicas na estrutura. Todos à nossa volta podem estar a tentar fazer o melhor para nós como crianças e, no entanto, acabamos agora, como adultos, a tratar de grandes feridas que continuam a impedir-nos de ser o que poderíamos ser.

Por último, e de forma mais pungente, uma das características dos desequilíbrios que decorrem de feridas na infância é que não revelam de forma clara as suas origens, nem para as nossas próprias mentes, nem para o mundo em geral.

Não temos a certeza das razões porque fugimos tanto, ou porque ficamos chateados com tanta frequência, ou porque temos um ar orgulhoso e arrogante, ou nos subjugamos ou apegamos excessivamente às pessoas que amamos. Simplesmente, assumimos que é assim que somos.

Uma vez que as fontes dos nossos problemas nos escapam, não conseguimos compreender porque as pessoas são como são e assim perdemos uma fonte vital da simpatia.

Os nossos problemas começam com uma ferida que, se fosse conhecida e explicada de forma adequada, favoreceria, naturalmente, uma terna compreensão.

Mas porque as consequências que gera tendem a ser muito menos atraentes e faltam explicações, ficamos abertos ao desdém, ao sarcasmo e à auto-desvalorização.

A nossa ferida pode ter começado com um sentimento de invisibilidade, mas agora parece que somos apenas show-off.

Talvez tenha começado com uma decepção, mas agora queremos controlar tudo loucamente.

Talvez tenha começado com um bullying, um pai competitivo, mas agora parece que estamos simplesmente sem forças.

Nós tornamos as nossas vidas mais difíceis do que deveriam ser, porque insistimos em olhar para as pessoas, nós mesmos e os outros, como um mal e um meio, em vez de as vermos como vítimas, tal como nós, de uma história inicial extremamente complicada.

Traduzido/adaptado por Pedro Martins a partir de:
“Why We’re All Messed Up By Our Childhoods” – Alain de Botton

psicólogo clínico

Deficit – Na Prespectiva da Saúde Mental

No seu sentido habitual o termo deficit significa insuficiência ou carência de algo. Do ponto de vista mental referimo-nos à insuficiente recepção ou fornecimento de algo que o sujeito deveria ter recebido por parte dos seus pais ou cuidadores, numa determinada etapa evolutiva da sua vida.

Este ponto de vista encontra-se vinculado à convicção de que todo o sujeito para o seu adequado desenvolvimento mental e para a harmonia e coerência do seu self, deve receber uma razoável dose de cuidados entre os quais se incluem amor, ternura, aprovação, confiança, aceitação, tolerância e segurança num regime de coerência e continuidade.

Quando essas contribuições não são suficientes produz-se um deficit.

Como é natural, aquilo que provoca o deficit não é somente ausência do que se necessita, do positivo, mas também a presença do que é prejudicial, que é negativo: ódio, agressividade, incoerência, instabilidade, desleixo, maus tratos físicos, patologia dos pais, instabilidade, etc.

Quando falamos de deficit podemos estar a referirmo-nos ao comportamento dos cuidadores, um facto objectivo, mas em si mesmo, o deficit não é um facto objectivo mas uma experiência subjectiva: a experiência de fragilidade, de incoerência, instabilidade, caos interno, sentimento de vazio, sensação de carência, etc.

A isso soma-se o sentimento de não se ser escutado, de não se ser amado, de não se ser reconhecido, de não se receber atenção, de ser abandonado, etc.

O grau em que esta experiência subjectiva coincide ou não com o que usualmente se denomina de “realidade objectiva” é sempre, salvo casos extremos de negligência e abandono, muito difícil ou impossível de precisar, porque a suposta realidade objectiva varia muito dependendo do observador.

Adaptado de Joan Coderch
“La prática de la psicoterapia relacional”

psicoterapeuta

Amigos imaginários

Os amigos imaginários não se constituem como alucinações que a criança vê fora de si, embora, em alguns casos, isso possa acontecer.

As crianças acreditam na sua existência real, procuram a sua companhia e conversam com eles.

Ao auxiliarem a criança na elaboração de angústias e ansiedades, os amigos imaginários têm um papel importante na constituição do Eu.

Estes também podem surgir quando a criança experimenta uma perda real ou fantasiada.

O amigo imaginário pode desdobrar-se em múltiplas personagens que actuam num teatro interno.

À medida que o Eu da criança se estrutura e vai sendo capaz de fazer frente a conflitos e aspectos contraditórios eles tendem a desaparecer.

Em alguns casos (raros), quando as condições para o seu desaparecimento não se verificaram eles permanecem, tornando-se aspectos cindidos da personalidade.

Ao auxiliarem a criança na elaboração de angústias e ansiedades, os amigos imaginários têm um papel importante na constituição do Eu.

Numa fase em que as crianças têm poucos amigos reais, os imaginários desempenham um papel importante na ampliação do seu mundo social.

Através dos vários papeis que os amigos imaginários vão desempenhando a criança vai experimentando sobre vários pontos de vista as relações humanas no mundo dos adultos.

À medida que se ampliam o número de amizades, os amigos imaginários vão-se tornando menos interessantes até ficarem para trás.

Isto não quer dizer que perante uma dificuldade, uma desilusão, a criança não recorra esporadicamente a ele para partilhar a tristeza, ou descarregar a raiva que está a sentir.

Às vezes fazem muita falta!

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